Encontro diplomático na Índia aborda futuro do acordo Mercosul-União Europeia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizou um encontro bilateral com o presidente da França, Emmanuel Macron, durante sua visita oficial à Índia, nesta quinta-feira (19). A reunião ocorreu em Nova Dheli, onde Lula participou da Cúpula sobre Inteligência Artificial, e teve como pano de fundo as complexas negociações para ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.
França mantém posição crítica sobre o tratado comercial
A França se destaca como um dos países mais críticos à implementação do acordo que visa criar a maior zona de livre comércio do mundo. Apesar da assinatura oficial ocorrida em janeiro deste ano, o tratado ainda precisa passar por processos de ratificação interna em todos os Estados-membros de ambos os blocos para entrar em vigor plenamente.
O governo francês mantém uma postura protecionista, influenciada por pressões do setor agrícola nacional e por exigências ambientais específicas. Outros países europeus como Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia também manifestaram preocupações sobre possíveis impactos negativos em seus setores agrícolas.
Alinhamento em temas globais e relação diplomática próxima
Embora existam divergências significativas no campo comercial, Brasil e França mantêm posições alinhadas em diversos temas globais, especialmente na agenda ambiental. Lula e Macron cultivam uma relação diplomática considerada muito próxima e cordial, que se fortaleceu durante o terceiro mandato do presidente brasileiro.
Macron visitou o Brasil em 2024, percorrendo várias cidades incluindo Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e a região amazônica. Durante a COP30, o presidente francês retornou ao país para participar da conferência em Belém e cumpriu agenda em Salvador, onde visitou projetos ligados à embaixada francesa e esteve no Pelourinho.
Processo de ratificação e próximos passos
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, resultado de mais de 25 anos de negociações, enfrenta um caminho complexo de aprovações:
- No lado europeu: O texto ainda precisa do aval do Parlamento Europeu e está sob análise do Tribunal de Justiça da UE para verificação de legalidade. Dependendo da interpretação jurídica, partes do acordo poderão exigir aprovação pelos parlamentos nacionais dos países-membros.
- No Mercosul: O acordo terá que passar pelos Congressos nacionais do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. No Brasil, a previsão é que a Câmara dos Deputados inicie a avaliação a partir da próxima segunda-feira (23), com o retorno das atividades parlamentares após o recesso de Carnaval.
Apesar da possibilidade de judicialização na Europa após a aprovação do acordo, uma vez concluída a ratificação interna pelos países do Mercosul, o tratado poderá entrar em vigor provisoriamente. No Brasil, a expectativa de implementação completa é a partir do segundo semestre de 2026.
Agenda internacional ampliada
Durante sua participação na Cúpula sobre Inteligência Artificial na Índia, o presidente Lula aproveitou a agenda em fóruns internacionais para ampliar sua articulação com diversos líderes. Além do encontro com Macron, o petista conversou com o CEO do Google, Sundar Pichai, e com o presidente da Croácia, Zoran Milanović.
Em seu discurso na cúpula sobre o impacto da IA, Lula destacou a dualidade da tecnologia e defendeu a necessidade de regulamentação das grandes empresas de tecnologia, reforçando sua posição sobre a governança global das inovações tecnológicas.
O encontro entre Lula e Macron representa mais um capítulo na complexa relação diplomática entre Brasil e França, que mescla convergências estratégicas em temas ambientais com divergências comerciais significativas, enquanto ambos os países buscam posicionar-se no cenário internacional em transformação.



