O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, afirmando que a América Latina não vai baixar a cabeça diante das pressões externas. A declaração ocorre em um momento de intensa movimentação diplomática norte-americana na região, com foco especial na Bolívia.
Pressão diplomática sobre a Bolívia
Segundo informações de duas fontes com conhecimento direto do assunto, os Estados Unidos estão exercendo forte pressão sobre o governo boliviano para que expulse supostos espiões iranianos de seu território. Washington também exige que La Paz designe oficialmente a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã como organização terrorista.
Além disso, diplomatas americanos querem que a Bolívia classifique o grupo armado libanês Hezbollah e o movimento palestino Hamas como entidades terroristas. Ambos são considerados pelos Estados Unidos como representantes dos interesses iranianos na região.
Ampliação da iniciativa diplomática
Fontes ouvidas pela agência Reuters revelaram que iniciativas semelhantes estão sendo avaliadas pelos diplomatas norte-americanos no Chile, no Peru e no Panamá. Esta ofensiva diplomática reservada faz parte de um esforço mais amplo dos EUA para aprofundar sua influência geopolítica na América Latina e reduzir a presença de seus adversários na região.
Após uma operação no início de janeiro para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, autoridades americanas pressionaram rapidamente o governo interino de Delcy Rodríguez a reduzir a cooperação econômica e de segurança entre Caracas e Teerã, conforme relatou uma fonte familiarizada com o assunto.
Posicionamento oficial e silêncio
Questionado sobre o tema, o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia afirmou que "ainda não há uma posição completamente definida sobre esse tema". O Departamento de Estado norte-americano não respondeu a pedidos de comentário, enquanto a missão iraniana nas Nações Unidas se recusou a comentar as acusações.
Jogos de espionagem no continente
À primeira vista, a Bolívia — um país sem saída para o mar com aproximadamente 12 milhões de habitantes — pareceria um local improvável para uma disputa indireta entre grandes potências mundiais. No entanto, alguns atuais e ex-funcionários dos EUA afirmam que o país se tornou uma base importante para as operações diplomáticas e de inteligência do Irã em todo o continente.
Rick de la Torre, ex-alto funcionário da CIA já aposentado e antigo chefe da estação em Caracas, explicou que enquanto a Venezuela era a principal base das operações iranianas na América Latina, Bolívia e Nicarágua serviram como "nodos secundários" de Teerã na região nos últimos anos.
"O valor da Bolívia para Teerã estava no clima político permissivo, na fiscalização mais branda e na geografia central", afirmou de la Torre. "Na prática, o padrão que se observa na América Latina é o Irã e o Hezbollah usando as jurisdições mais permissivas como centros, a partir dos quais se projetam discretamente para Estados mais capazes ou de maior valor nas proximidades."
Mudança no cenário político boliviano
Durante o governo de Evo Morales (2006-2019), a Bolívia aprofundou significativamente seus laços com o Irã, incluindo cooperação em temas de defesa e segurança. Morales argumentava que ambos os países estavam unidos na luta contra o que chamava de imperialismo dos Estados Unidos.
Morales e seu sucessor Luis Arce (2020-2025) eram amplamente vistos por autoridades americanas como pouco receptivos a possíveis esforços para afastar La Paz de Teerã. Contudo, a eleição em outubro do centrista Rodrigo Paz marcou o fim de quase duas décadas de domínio quase contínuo do partido esquerdista MAS, criando uma nova dinâmica política.
Nova oportunidade para Washington
Autoridades dos EUA acreditam ter uma oportunidade única com a presidência de Rodrigo Paz, que assumiu em novembro de 2025 herdando uma grave turbulência econômica e um Legislativo fragmentado. O novo governo tem buscado recompor os laços com Washington enquanto incentiva o investimento privado.
As autoridades americanas acolheram publicamente a eleição de Paz e, em dezembro, os EUA tornaram a Bolívia elegível para receber recursos de subvenção administrados pela Millennium Challenge Corporation, uma agência independente do governo norte-americano.
Esforço regional para conter o Irã
As fontes consultadas afirmam que a ofensiva relacionada ao Irã na Bolívia faz parte de uma campanha mais ampla dos EUA na região. Em setembro, o Equador — aliado americano — classificou a Guarda Revolucionária Islâmica, o Hamas e o Hezbollah como organizações terroristas.
Na semana passada, a Argentina designou a Força Quds — braço da Guarda Revolucionária responsável por operações no exterior — como organização terrorista. Os Estados Unidos defenderam ambas as medidas, segundo as fontes consultadas.
A Guarda Revolucionária Islâmica atua como uma força militar de elite leal ao líder supremo do Irã desde a Revolução Iraniana de 1979. Embora o esforço atual para abrir uma cunha geopolítica entre o Irã e a América Latina não seja novo, há sinais claros de que a iniciativa esteja se intensificando significativamente.