Lula denuncia retrocesso na integração latino-americana durante fórum no Panamá
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso contundente nesta quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, durante a sessão inaugural do Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, realizado na Cidade do Panamá. O evento, organizado pelo CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina, é frequentemente chamado de "Davos latino-americano" devido à sua importância para debates econômicos regionais.
Críticas à paralisia e divisões regionais
Em seu pronunciamento, Lula afirmou que a América Latina fracassou em sua missão de integração regional, tornando-se uma região mais frágil e vulnerável em um mundo marcado por convulsões. O mandatário brasileiro atribuiu essa situação a fatores internos e externos, com alfinetadas diretas e indiretas aos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.
"Vivemos um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração", declarou Lula, contrastando a situação atual com o ideal de união proposto por Simón Bolívar em 1826, também no Panamá. Ele lamentou que a breve experiência da Unasul entre 2003 e 2014 tenha sucumbido ao peso da intolerância, impedindo a convivência de visões diferentes.
Fóruns regionais em crise e influências externas
O presidente brasileiro foi especialmente crítico em relação aos fóruns regionais existentes, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). "Passamos de reunião em reunião, repletas de ideias e iniciativas que nunca saem do papel. Nossas cúpulas se tornaram rituais vazios", afirmou.
Lula destacou que a Celac está paralisada e não conseguiu produzir "nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região". Essa observação foi uma clara referência à incursão dos Estados Unidos em Caracas em 3 de janeiro, que levou à captura do ditador Nicolás Maduro - ação considerada por juristas como violação do direito internacional e da soberania venezuelana.
Desafios globais e falta de coordenação
Além das questões políticas, Lula criticou a falta de coordenação regional para enfrentar desafios urgentes, como:
- A pandemia de Covid-19 e suas consequências sanitárias e econômicas
- O avanço do crime organizado internacional na região
- Os efeitos do aquecimento global e as mudanças climáticas
O presidente alertou que esses desafios recolocam a questão do modelo de regionalismo possível para América Latina e Caribe. Em um contexto global de ruptura da ordem liberal e ressurgimento do protecionismo e unilateralismo, os paradigmas endógenos ligados ao pan-americanismo e ao bolivarianismo se mostram insuficientes.
Conclusão sobre a fragilidade regional
Lula finalizou reforçando que os países latino-americanos e caribenhos ficam mais frágeis quando estão sozinhos, especialmente diante de práticas isolacionistas comuns à administração Trump - embora tenha deixado claro que não se refere apenas ao presidente americano. O discurso no Panamá marcou um posicionamento firme do governo brasileiro sobre a necessidade de revitalizar a integração regional em um momento de crescentes tensões geopolíticas.