A crescente repressão do regime iraniano contra manifestantes está provocando uma reação em cadeia, tanto dentro quanto fora do país. Itália e Portugal estão entre as nações que reduziram sua presença diplomática no Irã, em um claro sinal de desaprovação às ações do governo do aiatolá Ali Khamenei. Enquanto isso, dentro das fronteiras iranianas, uma nova geração, que não viveu a Revolução Islâmica de 1979, emerge como a força motriz dos protestos, desafiando o status quo e buscando um futuro distante do autoritarismo e do apoio a grupos considerados terroristas.
Isolamento internacional e crise econômica alimentam êxodo
As medidas tomadas por países europeus são uma resposta direta à violência estatal. Portugal anunciou o fechamento temporário de sua embaixada em Teerã após convocar o embaixador iraniano para prestar esclarecimentos. Segundo o governo português, oito de seus cidadãos já deixaram o país e outros se preparavam para seguir o mesmo caminho. Esse movimento reflete um clima de insegurança e condenação internacional.
Internamente, o cenário é ainda mais complexo. O economista e especialista em relações internacionais Igor Lucena analisa que, apesar do medo imposto pelo regime, fatores econômicos são um poderoso incentivo para a emigração. A inflação no Irã supera os 40%, e a crise econômica se aprofunda, pressionando a população. Lucena alerta que sanções mais duras por parte dos Estados Unidos e da Europa podem agravar ainda mais a situação, dificultando a manutenção do sistema, mesmo com o apoio de aliados como Rússia e China.
A nova geração: sem vínculos com o passado revolucionário
Um dos aspectos mais significativos dos protestos atuais, segundo a análise de Igor Lucena, é o perfil dos participantes. Uma parcela considerável é formada por jovens e adolescentes que não vivenciaram o período da monarquia nem os primeiros anos da Revolução Islâmica. Portanto, não nutrem nenhuma afinidade ou lealdade histórica com o regime estabelecido em 1979.
"Para eles é muito difícil conviver com a atual situação sabendo que tudo poderia ser mais fácil na sua vida", afirmou Lucena em entrevista ao Conexão Record News. Essa desconexão geracional cria um terreno fértil para o descontentamento, pois os jovens enxergam as restrições políticas e sociais não como um legado sagrado, mas como um obstáculo ao seu desenvolvimento e liberdade.
O peso da imagem de um "Estado patrocinador do terrorismo"
Além das questões domésticas de autoritarismo e custo de vida, outro fator crucial motiva o descontentamento popular: a política externa do Irã. O especialista destaca que o apoio financeiro e militar do regime a grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis tem um impacto direto na autoimagem dos cidadãos.
"O mundo inteiro hoje sabe que o Irã bancou o Hamas, o Hezbollah, os Houthis etc. [...] Então é visto como um país que apoia diretamente o terrorismo internacional. E a população não quer ser vista dessa maneira", explicou Lucena. Essa percepção internacional isola ainda mais os iranianos e se soma às razões para os protestos, já que muitos cidadãos rejeitam que seu país seja associado a tal rótulo.
O futuro político do Irã permanece imprevisível. A combinação de uma crise econômica devastadora, o isolamento diplomático crescente, a repressão violenta e uma juventude desvinculada dos ideais revolucionários forma um coquetel explosivo. A possibilidade de uma onda migratória em larga escala é real, caso a pressão econômica supere o medo da repressão. Enquanto isso, o regime de Khamenei enfrenta seu desafio mais profundo em décadas, vindo não de potências estrangeiras, mas de dentro de casa, de uma geração que clama por mudanças radicais.