Irã: Protestos pró-governo em Teerã tentam ofuscar revolta popular que já matou 600
Irã tem protestos pró-regime e repressão a manifestantes

O Irã se encontra em uma encruzilhada política e econômica de grandes proporções. Enquanto as forças do regime organizam manifestações de apoio ao governo em resposta a um chamado do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, uma onda de protestos populares contra a gestão persiste, enfrentando uma violenta repressão estatal. A crise, desencadeada por uma espiral inflacionária, já resultou em um saldo trágico de centenas de mortos e milhares de detidos, segundo organizações de direitos humanos.

O palco duplo em Teerã

Nesta segunda-feira, dia 12 de janeiro de 2026, as ruas da capital iraniana foram cenário de dois movimentos antagônicos. De um lado, a emissora estatal divulgou imagens de uma multidão se dirigindo à Praça Enquelab para um comício intitulado “Revolta iraniana contra o terrorismo sionista americano”. O evento, classificado como uma demonstração de apoio ao regime, foi amplamente divulgado pelo governo.

Durante o ato, o presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, discursou, afirmando que o país enfrenta uma guerra em quatro frentes: econômica, psicológica, militar contra EUA e Israel, e, atualmente, contra o terrorismo. A narrativa oficial busca atribuir a instabilidade interna a interferências estrangeiras, especificamente de Washington e Tel Aviv.

A realidade da repressão e os números da crise

Por trás da fachada de unidade nacional, uma realidade muito mais sombria se desenrola. Os protestos anti-governo, que começaram no final de dezembro devido ao agravamento da crise econômica e à alta inflação, chegaram ao seu 16º dia consecutivo. Para tentar conter a mobilização e a circulação de informações, o regime cortou o acesso à internet no país na sexta-feira, 9 de janeiro.

No entanto, vídeos que vazaram pelas redes sociais mostram a continuidade dos distúrbios e a intensa repressão das forças de segurança. Dados da agência Human Rights Activists revelam a gravidade da situação: pelo menos 544 pessoas foram mortas durante os protestos, sendo 496 delas manifestantes. Além disso, mais de 10.681 pessoas foram detidas pelas autoridades, e a organização alerta que o número de vítimas fatais pode ainda aumentar.

Reações internacionais e tensão geopolítica

A violenta resposta do Estado iraniano aos protestos gerou condenação internacional. Nesta segunda-feira, países como Alemanha e Canadá pediram publicamente que Teerã interrompa a repressão. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, convocou embaixadores de Reino Unido, Itália, Alemanha e França para afirmar que a situação está “sob total controle” e acusar as manifestações de se tornarem violentas para justificar uma intervenção militar ocidental.

Do outro lado do Atlântico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renovou ameaças de uma possível intervenção militar para conter a violência contra os manifestantes, que em alguns atos chegaram a fazer homenagens ao líder americano. O aiatolá Khamenei rebateu, sugerindo que Trump deveria “se concentrar nos problemas de seu próprio país”.

Em meio a este cenário de alta tensão, observa-se um fenômeno interno significativo: o crescimento do apoio público a Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, deposto em 1979. Muitos manifestantes têm demonstrado simpatia pela antiga dinastia e feito apelos pelo fim do que chamam de ditadura, indicando que a crise atual vai muito além da economia e toca em questões profundas sobre a identidade e o futuro político da nação.