Irã sinaliza acordos em energia e aviação em nova rodada de negociações nucleares com EUA
O governo do Irã afirmou que eventuais acordos nas áreas de petróleo, gás, mineração e até compra de aeronaves podem integrar as negociações em curso com os Estados Unidos, numa tentativa estratégica de destravar um entendimento sobre o programa nuclear iraniano. A sinalização foi feita por Hamid Ghanbari, diretor-adjunto de diplomacia econômica do Ministério das Relações Exteriores iraniano, segundo a agência semioficial Fars.
Ele afirmou que, para garantir a durabilidade de qualquer acordo, é essencial que Washington também obtenha ganhos econômicos rápidos e significativos, indicando uma abordagem mais pragmática nas tratativas bilaterais.
Contexto histórico e tensões atuais
As tratativas entre Teerã e Washington foram retomadas neste mês, após anos de impasse que remontam à retirada americana do acordo nuclear de 2015. Naquele pacto, firmado entre o Irã e potências globais, sanções foram suspensas em troca de limites ao enriquecimento de urânio. Em 2018, o então presidente Donald Trump retirou os EUA do acordo e restabeleceu sanções severas contra a economia iraniana.
Agora, a nova rodada de conversas ocorre em meio a um cenário de tensão crescente. Autoridades americanas enviaram um segundo porta-aviões ao Oriente Médio e admitem preparar planos para uma campanha militar prolongada caso as negociações fracassem. Ao mesmo tempo, o secretário de Estado Marco Rubio declarou que a prioridade da Casa Branca é alcançar uma solução diplomática, embora tenha reconhecido que o sucesso não é garantido.
Diálogo bilateral e mediação de Omã
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, uma delegação americana que inclui os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner deve se reunir com autoridades iranianas em Genebra. A informação foi confirmada por um alto funcionário iraniano. Diferentemente das negociações que resultaram no acordo de 2015, desta vez o diálogo é bilateral, com Omã atuando como mediador.
O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, viajou a Genebra para participar das conversas indiretas e também se reunir com representantes da Agência Internacional de Energia Atômica, responsável por monitorar atividades nucleares no mundo.
Sinais de flexibilidade e linhas vermelhas
O vice-ministro das Relações Exteriores, Majid Takht-Ravanchi, indicou disposição para concessões. Em entrevista à BBC, afirmou que a decisão está “nas mãos dos Estados Unidos” e que o Irã pode adotar medidas como diluir parte de seu estoque de urânio altamente enriquecido, desde que haja alívio nas sanções econômicas.
Teerã, no entanto, mantém uma linha vermelha clara. O governo rejeita a exigência de interromper totalmente o enriquecimento de urânio em território iraniano. Para Washington, essa atividade pode abrir caminho para a produção de armas nucleares. O Irã nega buscar armamento atômico e sustenta que seu programa tem fins civis.
Pressão econômica e papel da China
Além da pressão militar, Washington intensificou o cerco econômico. Segundo o site Axios, Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu discutiram esforços para reduzir as exportações de petróleo iraniano para a China, destino de mais de 80 por cento do óleo vendido por Teerã. Qualquer restrição significativa a esse fluxo afetaria diretamente as receitas do país.
Netanyahu afirmou que um eventual acordo precisa ir além da suspensão do enriquecimento e incluir o desmonte da infraestrutura nuclear iraniana. Segundo ele, não basta interromper o processo; é necessário desmontar os equipamentos que o tornam possível. O premiê disse ver com ceticismo a possibilidade de um entendimento duradouro sem essas condições.
Implicações geopolíticas e futuro incerto
O líder israelense também declarou que pretende eliminar gradualmente a dependência de ajuda militar americana ao longo da próxima década, após o término do atual memorando de entendimento, que prevê US$ 3,8 bilhões anuais até 2028. Segundo Netanyahu, a meta é transformar a relação de assistência financeira em parceria estratégica.
O desfecho das negociações em Genebra poderá redefinir o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio. Em jogo estão não apenas o programa nuclear iraniano, mas também sanções, fluxos energéticos globais e a estabilidade de uma região historicamente marcada por conflitos e rivalidades estratégicas. As tensões aumentaram em junho, quando os EUA se somaram a Israel em ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas, com autoridades iranianas ameaçando atingir bases americanas na região caso sofram novos bombardeios.