O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês), órgão responsável pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), divulgou informações que apontam para um cenário complexo na política de imigração do país. Segundo a agência, o governo está preparando o terreno "para mais um ano histórico e recorde sob a presidência de Donald Trump", com foco na deportação de imigrantes ilegais com antecedentes criminais.
Números em debate: aumento de detenções sem condenações
O DHS afirma que, graças aos esforços do ICE, da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e outras agências, centenas de milhares de imigrantes ilegais com histórico criminal foram presos e deportados. A agência destaca que 70% dos presos pelo ICE são imigrantes ilegais com antecedentes criminais, acusados ou condenados por crimes nos Estados Unidos.
No entanto, dados analisados pela organização apartidária FactCheck, do Centro de Políticas Públicas Annenberg da Universidade da Pensilvânia, contradizem em parte essa narrativa. Nos três primeiros meses do segundo mandato de Trump, 21,9% dos imigrantes detidos não tinham antecedentes criminais. Esse percentual subiu para 34,2% nos três meses seguintes e, posteriormente, para 40,5% no trimestre encerrado em meados de outubro.
Dados recentes mostram tendência preocupante
Em janeiro, quase 43% dos detidos não tinham condenações nem acusações, de acordo com informações públicas do ICE analisadas pelo FactCheck. Paralelamente, a porcentagem de pessoas presas pelo ICE que possuíam condenações criminais — e não apenas acusações pendentes — caiu de 44,7% nos primeiros três meses do governo Trump para 31,8% no trimestre encerrado em meados de outubro.
Protestos se intensificam após mortes em Minneapolis
Enquanto o governo celebra os números de deportações, protestos contra a atuação do ICE se multiplicam em todo o país. A situação se agravou especialmente após a morte de dois cidadãos norte-americanos em Minneapolis, no estado de Minnesota, durante ações de agentes de imigração: Renee Nicole Good, em 7 de janeiro, e Alex Pretti, em 24 de janeiro.
A onda de manifestações registrada nos últimos dias levou o governo de Donald Trump a afastar Gregory Bovino, designado como "comandante-chefe" das operações da CBP em Minneapolis, que retornou ao antigo posto em El Centro, na Califórnia. Rapidamente, Minneapolis passou a ocupar o centro de um intenso debate nacional sobre a aplicação das leis de imigração nos Estados Unidos.
Presença massiva de agentes gera tensão
Cerca de 3 mil agentes do ICE e da CBP estão destacados na cidade, número aproximadamente cinco vezes maior que o efetivo do Departamento de Polícia de Minneapolis, que conta com cerca de 600 policiais. Agentes com o rosto coberto e fortemente armados, circulando em veículos sem identificação, tornaram-se presença comum em alguns bairros, deixando a população em alerta e revoltada.
Moradores classificam a atuação dos agentes como agressiva e denunciam abordagens aleatórias para a exigência de documentos de cidadania, inclusive contra policiais latinos e negros fora de serviço e servidores municipais, segundo autoridades locais ouvidas pela imprensa norte-americana. Crianças pequenas foram detidas junto com os pais, e agentes usaram gás lacrimogêneo em frente a uma escola durante um confronto com manifestantes.
Comunicação do DHS e reações políticas
Um alto funcionário do ICE afirmou no domingo que agentes federais realizaram aproximadamente 3.400 prisões na região, sem especificar quantos dos detidos tinham antecedentes criminais. Diante dos protestos contra a atuação do ICE e da CBP, o DHS divulgou um comunicado afirmando que os agentes de imigração enfrentam um aumento de 8.000% nas ameaças de morte e mais de 1.300% nos casos de agressão.
O documento do DHS ressalta que os agentes arriscam suas vidas "para remover assassinos, pedófilos, estupradores, membros de gangues e terroristas de bairros americanos". O chamado "czar da fronteira" da Casa Branca, Tom Homan, sinalizou na quinta-feira uma possível redução das operações de imigração em Minneapolis, mas o prefeito da cidade, Jacob Frey, afirmou que só acreditará quando isso de fato acontecer.
Este cenário revela uma crescente tensão entre as políticas de imigração do governo Trump e a realidade das comunidades afetadas, com dados que questionam a eficácia e o foco das ações de aplicação da lei.