Conflito no Oriente Médio transforma Sexta-Feira Santa em cenário de silêncio e tensão
A guerra em curso entre Israel e Irã provocou um esvaziamento dramático das tradicionais celebrações da Sexta-Feira Santa em todo o Oriente Médio, transformando locais sagrados em espaços quase desertos e alterando profundamente os rituais cristãos mais importantes do ano.
Jerusalém: uma cidade triste e vazia
A Cidade Velha de Jerusalém, que normalmente fervilha com milhares de peregrinos durante a Semana Santa, apresentou nesta sexta-feira uma imagem incomum e melancólica. Lojas permaneceram fechadas, ruas estavam vazias e a ausência de fiéis na Via Dolorosa – o caminho que, segundo a tradição cristã, Jesus percorreu até sua crucificação – criou um cenário de silêncio perturbador.
"Jerusalém parece triste, de verdade", observou-se no local, onde os rituais que normalmente atraem multidões foram severamente afetados pelas restrições de segurança impostas pela polícia israelense. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, há quase cinco semanas, o acesso aos locais sagrados foi limitado, com autoridades alegando que a área não dispõe de abrigos suficientes em caso de emergência.
Celebrações sob restrições e protestos
O patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, conseguiu celebrar uma cerimônia na Igreja do Santo Sepulcro, dentro da basílica na Cidade Velha. No entanto, a situação contrasta com o ocorrido no último domingo, quando o cardeal católico foi impedido de celebrar o Domingo de Ramos no mesmo local, provocando indignação internacional que levou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a revogar a proibição.
Os efeitos da guerra se espalham pela região, aprofundando a crise humanitária e alterando tradições religiosas milenares. No sul do Líbano, mesmo com uma tempestade de areia cobrindo a fronteira com Israel e tropas israelenses mantendo patrulhamento intenso em uma das áreas mais tensas do Oriente Médio, comunidades cristãs perseveraram em suas celebrações.
Resistência cristã no Líbano e apelos do Vaticano
Em meio ao conflito, cristãos do sul do Líbano mantiveram as tradições da Sexta Santa. Fiéis rezaram na Catedral de São Tomás e, em Qlayaa, uma procissão levou a cruz pelas ruas, com soldados garantindo a segurança. Muitos decidiram permanecer em suas comunidades, mesmo diante do medo constante e do isolamento causado pelos avanços militares na região.
"Estamos muito cansados… todos os dias há ameaças. Não podemos sair", desabafou Esperence Mbayet, refletindo o sentimento de exaustão que permeia a população civil afetada pelo conflito.
Em Roma, a Sexta-Feira Santa foi dedicada a apelos por uma paz duradoura. O papa Leão XIV conversou com os presidentes da Ucrânia e de Israel, defendendo a proteção de civis, ajuda humanitária e a retomada do diálogo diplomático. Posteriormente, na Basílica de São Pedro, o pontífice presidiu a celebração da Paixão de Jesus, prostrando-se em oração durante a cerimônia.
Via Sacra no Coliseu com mensagem contra a guerra
Um momento histórico ocorreu na Via Sacra no Coliseu, onde Leão XIV carregou a cruz durante todo o percurso – fato que não acontecia desde o pontificado de Paulo VI. As meditações das 14 estações da Via Crucis fizeram referência às guerras atuais e ao sofrimento de civis, denunciando o poder exercido por líderes que pensam poder abusar dele, desencadeando conflitos devastadores e provocando traumas em povos inteiros.
Embora não mencionasse diretamente Irã, Israel, Palestina, Rússia ou Ucrânia, o som simbólico das bombas esteve presente em cada passagem, culminando em uma mensagem clara: a fé não se cala diante da guerra. As celebrações, tanto no Oriente Médio quanto em Roma, destacaram como os conflitos geopolíticos contemporâneos continuam a interferir nas expressões religiosas mais profundas, criando paralelos entre o sofrimento de Cristo há dois mil anos e o sofrimento atual das populações civis em zonas de guerra.



