JÉSSICA MAESSÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Groenlândia, a maior ilha do mundo, tornou-se um ponto focal nas discussões da edição deste ano do Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça. Em meio a ameaças de invasão por parte de Donald Trump e anúncios de futuros acordos entre americanos e dinamarqueses, o território ártico emerge como um caldeirão climático com implicações globais profundas.
Derretimento do Ártico e suas consequências
Por um lado, o aquecimento global está acelerando o derretimento do Ártico, deixando a Groenlândia e suas áreas vizinhas mais vulneráveis a potenciais ataques e instabilidades. Por outro, a região é rica em minerais críticos para a transição energética, e o desaparecimento da camada de gelo facilita o acesso a esses recursos valiosos. Os imensos volumes de água de degelo provenientes da Groenlândia já respondem por aproximadamente um quinto do aumento do nível do mar em todo o planeta.
Impacto nas nações insulares
Para Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas para os oceanos, essa situação tem uma relação direta e alarmante com as nações insulares do Pacífico. "O derretimento da Groenlândia significa, na prática, o desaparecimento de uma nação do outro lado do mundo", afirmou ele em entrevista à Folha de S.Paulo. Thomson ressalta que as escolhas feitas por líderes globais atualmente definirão o futuro de ecossistemas frágeis e da estabilidade econômica regional no Ártico.
Proposta de pausa preventiva
O diplomata de Fiji, que participou do fórum por videochamada diretamente dos Alpes Suíços, destacou uma visão preocupante: "Quando alguns países e empresas veem um Ártico livre de gelo, pensam imediatamente na exploração de petróleo, rotas de navegação transpolares e mineração em águas profundas". Em resposta, ele propõe uma medida simples, porém ousada: uma pausa preventiva nessas atividades econômicas no oceano Ártico central.
Contexto geopolítico e ambiental
Thomson explicou que essa ideia surge em um momento geopolítico considerado tóxico, mas defende que manter áreas neutras pode ser útil em tempos difíceis. Ele citou o exemplo histórico da Suíça como uma zona neutra e mencionou que as nações do Círculo Ártico já concordaram com uma pausa preventiva na pesca, que tem sido respeitada por todos os países envolvidos.
Mudança climática e segurança mundial
Em relação à pergunta sobre como a mudança climática está moldando o panorama de segurança mundial, Thomson foi enfático: "Um bilhão de pessoas estão enfrentando a crise climática de maneira existencial, por causa da elevação do nível do mar, das secas e das tempestades tropicais severas". Ele observou que, embora em alguns países o tema seja marginalizado, a grande maioria das nações e o sistema das Nações Unidas reconhecem a realidade da crise climática.
Transição verde irreversível
O enviado especial destacou que a transição verde está em andamento e é vista como irreversível, baseando-se não apenas na lógica científica, mas também econômica. "Hoje é mais barato instalar energia solar ou eólica do que recorrer às antigas tecnologias de combustíveis fósseis", afirmou. Thomson usou um ditado para ilustrar a situação: "os cães ladram, mas a caravana passa", sugerindo que, apesar das resistências, o progresso rumo à sustentabilidade continua.
Interesse de Trump na Groenlândia
Sobre o interesse do ex-presidente Donald Trump em anexar a Groenlândia, Thomson evitou comentários detalhados sobre geopolítica, mas referiu-se a um discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney, que enfatizou a soberania da Groenlândia e a importância do respeito territorial. Do ponto de vista ambiental, ele reiterou que o derretimento da camada de gelo tem relevância direta para países como Tuvalu, que podem desaparecer devido ao aumento do nível do mar.
Futuras disputas geopolíticas
Thomson alertou que o derretimento da criosfera pode moldar futuras disputas geopolíticas, especialmente no Ártico, onde a ciência prevê um oceano livre de gelo durante o verão. Isso seria devastador para a vida selvagem e os povos indígenas, reforçando sua defesa por uma pausa preventiva na exploração econômica.
Davos Azul e a importância dos oceanos
O diplomata celebrou a adoção do tema "Davos Azul" neste ano do fórum, que deu espaço a discussões relacionadas à água e aos oceanos. Ele copreside a iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano, criada em Davos, que foi fundamental no lançamento do Plano de Ação Oceânica 30x30, visando proteger 30% dos oceanos até 2030. "Essa meta é alcançável, mas exige grande esforço e maior engajamento do setor privado", afirmou.
Eventos futuros e investimentos
Thomson mencionou que a ciência oceânica está recebendo o maior nível de investimento da história, impulsionada pela Década do Oceano da ONU e pelo setor privado. Ele destacou eventos futuros, como a Conferência da Década do Oceano no Rio de Janeiro em abril do próximo ano e a primeira Cúpula Global de Recifes de Coral na Arábia Saudita, enfatizando a urgência na proteção desses ecossistemas.
Raio-X de Peter Thomson
Peter Thomson, 77 anos
- Desde 2017, é o enviado especial do secretário-geral da ONU para os oceanos.
- Foi presidente da Assembleia Geral da ONU em 2016 e 2017.
- Atuou como representante permanente nas Nações Unidas durante seis anos, período em que também presidiu o conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.
- É copresidente e fundador da iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano do Fórum Econômico Mundial.
- Recebeu doutorados honorários da Universidade de Edimburgo e da Universidade de Bergen em reconhecimento ao seu trabalho em questões oceânicas.