Futaba, 15 anos após Fukushima: a luta para reconstruir uma cidade quase vazia
Futaba 15 anos após Fukushima: reconstrução de cidade vazia

Futaba, 15 anos após Fukushima: a luta para reconstruir uma cidade quase vazia

Quando Isuke Takakura retornou a Futaba, a cidade que conhecia desde criança já não existia como ele lembrava. As ruas permaneciam, os postes também, e algumas casas ainda estavam de pé — silenciosas, vazias, com janelas fechadas há mais de uma década. O que havia desaparecido eram as pessoas. Antes do desastre de 11 de março de 2011, Futaba tinha aproximadamente 7,2 mil habitantes. Hoje, quinze anos depois, apenas cerca de 190 moradores vivem oficialmente na cidade, segundo dados da prefeitura local — uma redução de mais de 97% da população.

Takakura é um desses poucos que retornaram. Ele caminha lentamente pelas ruas familiares, passando por casas abandonadas e terrenos onde a vegetação cresceu sem controle. "Sinto raiva às vezes. E tristeza também", afirma. A frase sai tranquila, quase sem emoção, talvez por ter sido repetida inúmeras vezes ao longo desses anos. Mas ele continua: "Se ninguém fizer nada, este lugar se tornará uma terra morta." Foi exatamente esse pensamento que o motivou a voltar.

A cidade que parou no tempo

Futaba está localizada na costa da província de Fukushima, voltada para o Oceano Pacífico. Durante décadas, a cidade conviveu a apenas cerca de 4 quilômetros da usina nuclear de Fukushima Daiichi, operada pela companhia elétrica TEPCO. Em 2011, um terremoto de magnitude 9.0 — o mais forte já registrado no Japão — desencadeou um tsunami gigantesco que devastou o litoral nordeste do país. Mais de 20 mil pessoas morreram ou desapareceram na tragédia, conforme dados do governo japonês.

O tsunami não apenas destruiu cidades inteiras ao longo da costa, mas também inundou a usina nuclear, provocando uma série de explosões e falhas de resfriamento que resultaram no maior acidente nuclear desde Chernobyl. Futaba estava no epicentro dessa história. Por anos, toda a população foi obrigada a evacuar, deixando casas abandonadas com objetos ainda sobre mesas e carros parados nas garagens. Em muitos bairros, o tempo simplesmente parou.

O santuário como símbolo de resistência

Seis anos após a evacuação total, o governo japonês começou a retirar gradualmente as ordens de evacuação em algumas áreas. No entanto, isso não significou o retorno em massa dos moradores. A maioria não voltou. Observando aquela paisagem vazia, Takakura se perguntava: "se ninguém retornar, o que resta de uma cidade?" Foi então que ele aceitou liderar um projeto simbólico — reconstruir o santuário xintoísta da comunidade, destruído pelo tsunami.

Durante séculos, santuários foram o centro espiritual das aldeias japonesas, locais onde festivais, cerimônias e encontros comunitários aconteciam. Sem o santuário, Takakura acreditava que Futaba perderia sua alma. "Se não houver algo para as pessoas voltarem, elas simplesmente não voltam", reflete. O novo santuário foi concluído há quatro anos. Embora não tenha trazido a população de volta, trouxe algo ainda mais raro em uma cidade quase deserta: a sensação de que aquele lugar ainda pode continuar existindo.

Novas indústrias e a economia da reconstrução

Memória e símbolos, sozinhos, não sustentam uma cidade. Reconstruir exige trabalho e empregos. Nos últimos anos, a região de Futaba e cidades vizinhas começou a atrair pequenos projetos industriais e tecnológicos, tentando responder à pergunta que paira sobre Fukushima desde 2011: como reconstruir uma economia em um território marcado por um desastre nuclear?

Quinze anos após o acidente, a palavra radiação ainda provoca apreensão. Para muitos japoneses, Fukushima permanece associada a um risco invisível. Embora medidores de radiação instalados em praças, escolas e prédios públicos mostrem níveis comparáveis aos de grandes cidades ao redor do mundo — segundo o governo japonês e organismos internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica — o medo persiste. Muitos antigos moradores hesitam em voltar não apenas pela radiação, mas também pela perda de infraestrutura, empregos e laços comunitários.

Iniciativas inovadoras estão surgindo:

  • Em Namie, uma startup japonesa desenvolve aquicultura em terra firme usando água salgada artificial, sensores e monitoramento digital, criando peixes em espaços reduzidos
  • Outra empresa na mesma região produz bioplástico a partir de arroz descartado, transformando um estigma ambiental em motor de inovação
  • Em Tomioka, uma vinícola surgiu da vontade de reconstruir o território, plantando uvas em terrenos devastados pelo tsunami
  • Uma empresa têxtil instalou uma fábrica na região para produzir fios especiais, acreditando que o passado trágico pode se transformar em vantagem competitiva

Uma geração que decide voltar

Entre os funcionários dessas novas empresas está uma geração que cresceu com a memória do desastre. Riona Okada tinha apenas cinco anos quando o terremoto começou. Sua família evacuou e passou anos vivendo como deslocada. "Ficamos em casas de parentes, depois em apartamentos alugados. Foram muitas mudanças", recorda.

Ela retornou para a região alguns anos depois e hoje trabalha em uma das empresas que tentam reconstruir a economia local. "No começo eu tinha um pouco de medo de trabalhar aqui", admite. "Mas quando penso no que aconteceu, lembro que muitas pessoas ajudaram nossa família naquele momento. Então eu queria fazer algo de volta pela minha região." Seus pais ficaram preocupados com sua decisão, mas ela permaneceu firme: "Se ninguém fizer nada, nada vai mudar."

O silêncio que permanece e o futuro incerto

Quinze anos após o desastre, Fukushima continua sendo um território em transição. Existem novas empresas, novos projetos e algumas famílias retornando, embora a maioria sejam novos moradores de outras regiões que desejam ajudar na recuperação. O ritmo da reconstrução, no entanto, é lento, e o vazio ainda domina grande parte da paisagem.

Em Futaba, o silêncio permanece como a presença mais constante. No fim da tarde, Takakura costuma caminhar pelas ruas vazias da cidade. O vento que vem do Pacífico atravessa terrenos onde antes havia casas, passa por lotes cobertos de mato e segue até o antigo centro urbano. "Quero ver com meus próprios olhos até onde esta cidade consegue chegar", diz ele.

Talvez Futaba nunca volte a ser a cidade que era antes de 2011. Mas Takakura continua ali — caminhando pelas ruas silenciosas, observando cada pequeno sinal de retorno. Ele olha ao redor para a cidade quase deserta e repete a frase que tem dito desde que decidiu voltar: "Se ninguém fizer nada… este lugar se tornará uma terra morta." Sua presença, junto com as novas iniciativas econômicas e os poucos que retornaram, representa uma frágil mas persistente esperança de que Futaba possa, um dia, renascer das cinzas do maior desastre nuclear do século XXI.