Um comunicado conjunto das principais potências europeias reacendeu o debate sobre a soberania da Groenlândia nesta terça-feira, 6 de janeiro de 2026. A declaração foi uma resposta direta às recentes afirmações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a defender o controle americano sobre o território ártico.
União Europeia contra a pressão de Washington
Líderes de França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Polônia e Dinamarca se uniram para emitir uma mensagem clara: a Groenlândia pertence ao seu povo. O documento classifica como inaceitável a pressão exercida por Washington e reafirma o apoio à autonomia da ilha, que integra o Reino da Dinamarca.
O episódio atual remonta a 2019, quando Trump, em seu primeiro mandato, já havia causado mal-estar diplomático com comentários similares. No entanto, a situação ganhou um tom mais preocupante após a recente operação militar americana na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. Para as autoridades europeias, esse evento serviu como um alerta sobre a disposição do governo Trump de usar a força para impor seus interesses estratégicos.
Alertas sobre os limites da Otan e investimentos no Ártico
O comunicado europeu foi além da simples defesa da soberania. Os signatários destacaram que a segurança no Ártico deve ser garantida de forma coletiva, no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O texto também menciona que os países europeus têm ampliado sua presença militar e cooperação estratégica na região, vista como cada vez mais sensível devido à competição global com Rússia e China.
Em Varsóvia, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, foi enfático: "Nenhum membro da Otan pode ameaçar outro. Se isso acontecer, a aliança perde o sentido", declarou, em uma mensagem explícita aos Estados Unidos.
Do lado dinamarquês, a resposta à pressão tem sido concreta. No ano passado, a Dinamarca anunciou um pacote de 42 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de 6,6 bilhões de dólares) para ampliar sua presença militar no Ártico, incluindo vigilância aérea e marítima.
Posições divergentes dentro do governo americano
Enquanto a Europa se une, os sinais vindos de Washington são contraditórios. O enviado especial de Trump para a Groenlândia, Jeff Landry, governador republicano da Louisiana nomeado no mês passado, afirmou que a segurança da ilha é uma "preocupação legítima" dos EUA. Ele negou a hipótese de uso da força e disse que Trump apoiaria uma Groenlândia independente, mas economicamente alinhada com Washington.
Contudo, a retórica mais agressiva partiu do chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller. Em entrevista à CNN, ele minimizou argumentos sobre soberania e direito internacional, afirmando: "Vivemos em um mundo governado pela força e pelo poder". Miller acrescentou que ninguém enfrentaria militarmente os EUA por causa da Groenlândia.
O clima de tensão foi amplificado por uma publicação nas redes sociais da esposa de Miller, Katie Miller. Poucas horas após a operação na Venezuela, ela compartilhou uma imagem da Groenlândia pintada com as cores da bandeira americana, acompanhada da palavra "em breve".
O peso estratégico da maior ilha do mundo
Com apenas cerca de 57 mil habitantes, a Groenlândia não é um membro independente da Otan, mas está sob a proteção do tratado por meio da Dinamarca. Sua importância, no entanto, é colossal.
Sua localização estratégica, entre a América do Norte e a Europa, abriga instalações-chave do sistema americano de defesa antimísseis. Além disso, o território concentra vastas reservas minerais consideradas essenciais para a transição energética global, um fator que atrai fortemente o interesse de Washington e de outras potências.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, agradeceu a manifestação de solidariedade europeia e reiterou o apelo por um "diálogo respeitoso" com os Estados Unidos, baseado no direito internacional e no princípio da integridade territorial. A ilha já declarou reiteradas vezes não ter interesse em se tornar parte dos EUA, posicionando-se no centro de um delicado tabuleiro geopolítico que redefine os limites do poder no século XXI.