Uma recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro, está gerando apreensão entre nações latino-americanas permeadas pelo narcotráfico. O temor é que a ação americana crie um precedente para intervenções similares em outros países sob a mesma justificativa.
Diálogo entre Trump e Petro busca acalmar ânimos
Nesta terça-feira, 7 de janeiro de 2026, os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Gustavo Petro, da Colômbia, conversaram por telefone pela primeira vez desde a detenção de Maduro. A discussão, conforme relatado por Trump em suas redes sociais, abordou a situação do tráfico de drogas e outras divergências bilaterais.
O líder americano também mencionou a possibilidade de uma visita de Petro à Casa Branca e se disse favorável à continuidade do diálogo entre os dois países. Do lado colombiano, Petro afirmou ter proposto à presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, a realização de um diálogo mundial para estabilizar a Venezuela, vizinha da Colômbia.
Alerta sobre uma catástrofe sem precedentes
Apesar da abertura para conversas, autoridades colombianas expressaram preocupação pública. O vice-chanceler Mauricio Jaramillo alertou, em entrevista à France-Presse, que o ataque dos Estados Unidos na Venezuela pode escalar e desencadear uma catástrofe sem precedentes na América Latina.
Este receio não se limita à Colômbia. Segundo a pesquisadora Clarita Maia, doutora em direito pela USP e membro da Academia Suíça de Direito Internacional, outros países que convivem com o narcotráfico compartilham da mesma apreensão.
Precedente perigoso para a região
Clarita Maia explica que o fundamento legal da operação americana – crimes relacionados ao tráfico de drogas – abre uma perigosa porta. A ação poderia servir de modelo para atuações similares em outras nações, baseadas nos mesmos motivos.
"Pelo fato de Maduro e outros acusados responderem por crimes relacionados ao tráfico de drogas, a operação americana poderia abrir precedentes para uma atuação similar em outros países pelos mesmos motivos", pontuou a especialista em entrevista ao Conexão Record News nesta quinta-feira, 8 de janeiro.
Ela ressalta um agravante: mesmo que os chefes de Estado não estejam diretamente envolvidos com organizações criminosas, não é possível garantir o mesmo para outras figuras de alto escalão dentro de seus governos. Essa incerteza amplifica os temores de intervenções externas.
"Nós sabemos que o tráfico de drogas em aliança com o terrorismo internacional, infelizmente, tem sido um problema real em todos os países latino-americanos e que não dá para asseverar que não há envolvimento de figuras em algum escalão do poder público desses países", alertou Clarita Maia.
A conversa entre Trump e Petro ocorre após uma intensa troca de farpas entre os líderes, agravada pela operação militar. Enquanto a Casa Branca sinaliza com possíveis visitas e continuidade do diálogo bilateral, os países da região observam com cautela os desdobramentos, temendo que a ação na Venezuela seja apenas o primeiro capítulo de uma série de intervenções que redefine a soberania na luta contra o narcotráfico.