EUA assumem controle do petróleo venezuelano após prisão de Maduro e criam fundo fiduciário
EUA assumem petróleo da Venezuela e criam fundo fiduciário

Visita histórica e mudança radical nas relações entre EUA e Venezuela

O Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, realizou uma visita histórica à Venezuela, tornando-se o funcionário americano de mais alto escalão a pisar em solo venezuelano em mais de vinte anos. Esta visita ocorre em um contexto de transformações profundas nas relações entre os dois países, marcadas pelo anúncio surpreendente do presidente Donald Trump em 3 de janeiro.

Anúncio presidencial e reações contraditórias

"O negócio do petróleo na Venezuela tem sido um fracasso", declarou Trump poucas horas após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação militar americana. O presidente americano anunciou que seu país assumiria o controle da indústria petrolífera venezuelana, prometendo trazer "nossas grandes companhias petrolíferas americanas, as maiores do mundo, para investir bilhões de dólares".

Estas palavras provocaram uma onda de sentimentos contraditórios entre os venezuelanos, que testemunharam o declínio da indústria petrolífera nacional ao longo do último quarto de século devido a desinvestimento, corrupção e sanções internacionais. Ao mesmo tempo, muitos venezuelanos mantêm um forte senso de identidade ligado ao petróleo, percebendo-o não apenas como fonte de riqueza, mas como recurso que pertence a toda a nação.

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Mecanismo de vendas e fundo fiduciário

Em 6 de janeiro, apenas três dias após a prisão de Maduro, Trump anunciou através do Truth Social que o governo interino venezuelano de Delcy Rodríguez entregaria entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos. O Departamento de Energia americano (DOE) confirmou o início das negociações, estabelecendo um mecanismo que seria aplicado indefinidamente.

As empresas de comercialização Vitol e Trafigura foram escolhidas para executar essas transações iniciais, adquirindo o petróleo venezuelano com descontos significativos em relação ao preço do barril Brent. Segundo o secretário de Estado Marco Rubio, este mecanismo de curto prazo foi necessário porque "a Venezuela estava ficando sem capacidade de armazenamento" e o governo interino enfrentava pressão fiscal para cobrir despesas essenciais.

Sistema financeiro complexo e controles

O dinheiro das vendas de petróleo, avaliado inicialmente em US$ 500 milhões, não está sob controle direto das autoridades venezuelanas. Em vez disso, os recursos são depositados em uma conta do Banco Central da Venezuela no JP Morgan, sendo posteriormente transferidos para uma conta no Catar que funciona como fundo fiduciário entre os EUA e o governo venezuelano.

Rubio explicou ao Senado americano que esta estrutura foi criada para resolver dificuldades legais, já que os Estados Unidos não reconhecem a legitimidade do governo venezuelano e precisavam evitar que credores assumissem o controle dos fundos. "Se qualquer quantia desse dinheiro chegasse a um banco americano, mesmo que estivesse em uma conta em nome de venezuelanos, seria imediatamente congelada", afirmou o secretário de Estado.

Distribuição dos recursos e falta de transparência

Os fundos estão sendo alocados através de leilões realizados pelo Banco Central da Venezuela, com acesso permitido através de quatro bancos venezuelanos. Segundo o economista Alejandro Grisanti, até 30 de janeiro a distribuição seguia esta proporção:

  1. 80% para setores prioritários como alimentos e medicamentos
  2. 15% para outros setores produtivos
  3. 5% para pessoas físicas

Rubio afirmou que os EUA estão desenvolvendo um mecanismo de auditoria posterior, pago com recursos venezuelanos, para verificar como o dinheiro está sendo gasto. No entanto, especialistas expressam preocupação com a falta de transparência do processo.

"Não sabemos claramente quem aprova a distribuição dos fundos, quais critérios são usados para garantir que o dinheiro seja realmente destinado à compra de alimentos, combustível ou ao pagamento de salários", alerta David L. Goldwyn, presidente da consultoria Goldwyn Global Strategies.

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Impactos econômicos e perspectivas futuras

Até o momento, o Banco Central da Venezuela já leiloou aproximadamente US$ 800 milhões através do sistema bancário, seguindo um ritmo que poderia chegar a US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026. Segundo Rubio, algo entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões provavelmente serão administrados através deste mecanismo temporário.

O economista Asdrúbal Oliveros vê progresso em comparação com o cenário anterior: "A perspectiva agora é de maior estabilidade cambial, uma redução da inflação, que é bastante preocupante no momento. Isso ajudaria a ter um pouco mais de estabilidade, permitindo que o setor privado opere em melhores condições".

Goldwyn observa que o processo tem sido favorável em termos de efeitos anticorrupção e economicamente, ao aumentar a disponibilidade de moeda estrangeira na economia venezuelana. No entanto, ele alerta: "É muito cedo para saber se este é um sistema eficaz para estabilizar a economia. Eles precisam de muito mais receita para alcançar a estabilização".

Enquanto isso, o Secretário de Energia Chris Wright garantiu em sua visita que Trump está comprometido em transformar a relação com Caracas para "trazer comércio, paz, prosperidade, empregos e oportunidades ao povo da Venezuela em parceria com os Estados Unidos", marcando um novo capítulo nas relações bilaterais que promete redefinir o futuro econômico da nação sul-americana.