Orbán enfrenta maior desafio político após 16 anos no poder na Hungria
"Eles só representam raiva, ódio e destruição", bradou Viktor Orbán com voz rouca durante comício eleitoral em Györ, no oeste da Hungria, em 27 de março. O primeiro-ministro húngaro, acostumado a uma imagem de calma estratégica, mostrou um lado diferente ao reagir a manifestantes da oposição que gritavam "Fidesz imundo" durante seu discurso. Este momento revelador ocorre em um contexto eleitoral extremamente tenso, onde a maioria das pesquisas coloca o partido de oposição Tisza e seu líder Peter Magyar significativamente à frente do Fidesz de Orbán - com uma pesquisa recente indicando 58% contra 35%.
Mudança histórica na percepção pública
"Podemos notar uma grande mudança na percepção pública", afirma Endre Hann, da agência de pesquisas Median. Em janeiro, 44% dos entrevistados acreditavam que o partido Fidesz venceria as eleições, mas em março esse cenário se inverteu completamente, com 47% passando a crer no triunfo da oposição. "Isso reflete uma enorme mudança de confiança", destaca Hann.
Uma dinâmica intrigante se desenvolve na política húngara: a mesma raiva dos eleitores contra "elites governantes corruptas" que impulsionou movimentos populistas em toda a Europa agora se volta contra o próprio Orbán e seu partido. Após 16 anos de governo praticamente incontestável, o líder húngaro é visto por muitos, especialmente pelos jovens, como parte da elite que prometia combater.
Acusações de corrupção e clientelismo
O governo de Orbán tem sido frequentemente acusado de drenar os cofres públicos e conceder licitações estatais a empresas de pessoas próximas ao círculo do poder. Seu genro, Istvan Tiborcz, possui uma série de hotéis de destaque, enquanto seu amigo de infância Lörinc Meszaros, um ex-instalador de gás, tornou-se o homem mais rico da Hungria. O governo justifica essa concentração de riqueza como uma tentativa de manter o dinheiro em mãos húngaras.
Para garantir votos, o Fidesz construiu um forte sistema de clientelismo local nos vilarejos húngaros. Um documentário investigativo divulgado recentemente revelou que prefeitos foram informados sobre quantos votos cada vila precisa garantir para o partido governista. Segundo entrevistados, os incentivos incluem pagamentos em dinheiro de € 120 por voto, vales-alimentação, medicamentos controlados e até drogas ilícitas em troca de apoio ao Fidesz.
A estratégia do medo e a questão ucraniana
Orbán tem centrado sua campanha em uma mensagem simples: esta eleição representa uma escolha entre paz e guerra. O primeiro-ministro argumenta que somente ele pode impedir que "belicistas" em Bruxelas arrastem a União Europeia - e com ela a Hungria - para um conflito direto com a Rússia na Ucrânia. Peter Magyar, líder do Tisza, é retratado como fantoche de Bruxelas.
No entanto, pesquisas sugerem que a mensagem anti-Ucrânia do Fidesz está perdendo força. Dados recentes da agência Median indicam que 52% dos entrevistados concordam que "a Rússia cometeu um ato grave e não provocado de agressão contra a Ucrânia" com a invasão de 2022, enquanto apenas 33% apoiam a narrativa governista de que "a Rússia agiu legalmente para defender seus interesses".
O desafiante: Peter Magyar
Peter Magyar, de 45 anos, é um ex-membro do Fidesz que abandonou o partido em fevereiro de 2024 e fundou o Tisza. Com formação em direito e experiência como diplomata em Bruxelas, Magyar inicialmente parecia muito urbano para conquistar o eleitorado rural, mas provou ser um desafiante formidável.
Ao contrário de Orbán, que discorre sobre política global, Magyar concentra-se em questões internas como saúde, educação, transporte e despovoamento rural. Ele prometeu "restaurar o assento da Hungria nas mesas da União Europeia e da Otan" e diversificar as fontes energéticas do país, atualmente dependentes da Rússia.
Impactos internacionais da eleição húngara
"Budapeste é a sede da democracia iliberal no mundo", afirma Michael Ignatieff, ex-reitor da Universidade Centro-Europeia. "Esta não é apenas uma eleição. É um referendo sobre todo esse modelo de governo autoritário que Orbán representa."
Uma vitória do Fidesz daria impulso às chances de partidos de extrema-direita na França, Alemanha, Polônia, Espanha e Portugal. Por outro lado, uma derrota representaria um revés significativo para esses movimentos em toda a Europa. Orbán conta com apoio de figuras como Donald Trump nos Estados Unidos e mantém relações próximas com Vladimir Putin na Rússia, posicionando-se como pedra no sapato da União Europeia.
O futuro da Hungria em jogo
"O que temos agora é um Estado que foi totalmente capturado por um único partido", diz Andras Baka, ex-presidente do Supremo Tribunal da Hungria. Se o Fidesz vencer, "teremos uma autocracia ainda mais rígida". Se o Tisza triunfar, haverá uma longa lista de tarefas para restaurar a independência das instituições democráticas.
Com apenas uma semana até as eleições parlamentares de 12 de abril, Orbán trava sua batalha mais difícil desde que assumiu o poder em 2010. O resultado não apenas determinará o futuro da Hungria, mas enviará ondas de choque através do cenário político europeu e do movimento populista internacional que Orbán ajudou a definir.



