El Helicoide: de símbolo de terror a centro de lazer na Venezuela pós-Maduro
Em um momento histórico de transição política, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou nesta semana a transformação do icônico edifício El Helicoide em um centro multiuso. A estrutura, que por décadas funcionou como prisão política e símbolo de repressão, será convertida em um complexo esportivo, social, cultural e comercial. O anúncio ocorre paralelamente à declaração de uma anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas, após a queda do ex-presidente Nicolás Maduro.
Reação de familiares e ativistas dos direitos humanos
Imediatamente após o comunicado oficial, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de detenção em Caracas, aos gritos de "liberdade", conforme reportado pela agência de notícias AFP. A mudança é vista com esperança por muitos, mas também com cautela por organizações de direitos humanos.
Segundo estimativas da ONG Foro Penal, a Venezuela possui atualmente pelo menos 711 presos políticos, dezenas dos quais estavam detidos no próprio Helicoide. "É um alívio que fechem este centro", declarou Raidelis Chourio, de 39 anos, cujo irmão está preso desde 2025 em outra prisão venezuelana. Para Chourio e muitos outros, a palavra "Helicoide" tornou-se sinônimo de tristeza e tortura.
Da ambição arquitetônica ao centro de tortura
Localizado na região central de Caracas, o El Helicoide nasceu na década de 1950 como um símbolo da modernidade venezuelana. Projetado em 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, o edifício piramidal com passagens helicoidais foi concebido para ser um luxuoso shopping center drive-thru, incluindo hotel cinco-estrelas e heliporto. O design inovador chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
No entanto, o destino do ícone arquitetônico mudou radicalmente em 1986, quando foi ocupado pela polícia política (Disip). Posteriormente, tornou-se sede da Polícia Nacional e do Serviço de Inteligência (Sebin), transformando-se de símbolo do futuro em emblema do medo e da repressão.
Relatos de violações e investigações internacionais
Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classifica o local como o "maior centro de tortura da América Latina". Preso em 2018, Navarro relatou à AFP em 2023 os horrores vividos dentro do Helicoide: "presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (...), batiam em mim".
Outras denúncias detalham métodos brutais como:
- Asfixia com sacos plásticos
- Espancamentos com tacos de madeira
- Uso de correntes em várias partes do corpo
A situação atraiu a atenção de organismos internacionais. O Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga possíveis crimes contra a humanidade, enquanto a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados. As autoridades venezuelanas sempre negaram as acusações, alegando instrumentalização política da justiça internacional.
O futuro: entre centro cultural e memória histórica
Com o anúncio da revitalização, defensores dos direitos humanos defendem que o espaço não se limite a funções recreativas. Marino Alvarado e outros ativistas propõem que o Helicoide se torne um centro de memória histórica, garantindo que as violações dos últimos anos não caiam no esquecimento.
A transformação física do edifício coincide com uma transformação política mais ampla. A anistia geral anunciada pela presidente interina cobre quase três décadas de governos chavistas, marcando um possível ponto de virada na história venezuelana. Resta saber se o novo "centro de lazer" conseguirá apagar as marcas de um passado tão traumático ou se servirá como lembrete permanente da necessidade de justiça e reconciliação.