Draghi declara morte da ordem econômica mundial e pede que Europa se torne potência
Draghi: ordem econômica mundial está morta, Europa deve virar potência

Draghi alerta para fim da ordem econômica mundial e pede transformação europeia

O ex-primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, fez um discurso contundente nesta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, na Universidade KU Leuven, na Bélgica, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa. Em sua fala, Draghi declarou que a atual ordem econômica mundial está "morta" e instou a Europa a superar suas divisões históricas para se tornar uma "potência real" capaz de responder às crescentes ameaças impostas pelos Estados Unidos e pela China.

Risco de subordinação e desindustrialização

Segundo Draghi, desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, ficou evidente que a fragmentação política europeia serve aos interesses americanos. "A Europa corre o risco de ficar subordinada, dividida e desindustrializada", alertou o ex-líder italiano. Ele enfatizou que uma Europa incapaz de defender seus próprios interesses não conseguirá preservar seus valores fundamentais por muito tempo.

Draghi apresentou uma escolha crucial para o continente: "Continuamos a ser apenas um grande mercado, sujeito às prioridades dos outros? Ou damos os passos necessários para nos tornarmos uma potência?" Ele destacou que, entre todas as nações situadas entre os EUA e a China, apenas os europeus têm a oportunidade real de se transformarem em uma verdadeira força geopolítica.

Transição de confederação para federação

Para enfrentar os novos desafios globais, Draghi defendeu que a Europa precisa evoluir de uma confederação para uma federação. "O poder exige que a Europa passe de confederação a federação", afirmou, explicando que a antiga ordem global já não existe mais. Ele alertou ainda que "um mundo com menos comércio e regras mais fracas seria doloroso" para todas as nações envolvidas.

O ex-presidente do BCE citou como exemplo a recente crise diplomática envolvendo a Groenlândia, quando Trump ameaçou anexar o território dinamarquês. Draghi viu na resposta europeia uma demonstração importante de solidariedade e determinação, mas ressaltou que ações isoladas não são suficientes diante das transformações estruturais em curso.

Pesquisa revela mudança de percepção europeia

Uma pesquisa recente da revista francesa de geopolítica Le Grand Continent, realizada pelo instituto Cluster17 em sete países da União Europeia, confirma a mudança de mentalidade no continente. O estudo revelou que:

  • 51% dos europeus consideram Donald Trump "um inimigo da Europa"
  • 73% acreditam que a UE deve garantir sua própria defesa sem depender dos Estados Unidos
  • Apenas 22% ainda confiam na possibilidade de contar com o apoio de Washington

Os países pesquisados incluíram França, Bélgica, Alemanha, Itália, Espanha, Dinamarca e Polônia - todas nações membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar transatlântica que tem os Estados Unidos como principal força.

Dependência histórica e novos desafios

Durante décadas, as nações europeias reduziram significativamente seus gastos com defesa, confiantes de que Washington viria em seu auxílio caso necessário. Essa postagem foi fundamentada na crença de que o mundo pós-Guerra Fria seria marcado pelo pacifismo e cooperação internacional.

Atualmente, porém, a Europa se encontra em uma situação de acentuada dependência militar dos americanos, que há anos exigem que o continente assuma maior responsabilidade por sua própria proteção. Essa demanda se tornou ainda mais incisiva durante o governo Trump, criando uma pressão adicional para que a UE redefina sua posição no cenário global.

Draghi finalizou seu discurso com um apelo urgente: a Europa precisa agir rapidamente para não se tornar mera espectadora em um mundo onde as regras estão sendo reescritas pelas grandes potências. Sua mensagem clara é que o tempo de hesitação acabou e que o continente deve unir forças para construir um futuro onde possa defender seus interesses e valores de forma independente e eficaz.