Delcy Rodríguez: Quem é a nova mandatária da Venezuela e como ela está reconfigurando o poder
Delcy Rodríguez: a nova presidente da Venezuela e seu poder

Delcy Rodríguez: a ascensão da nova mandatária venezuelana

Delcy Rodríguez não completou um mês como presidente em exercício da Venezuela, mas seu poder vem se consolidando há anos. A atual mandatária assumiu o cargo no dia 5 de janeiro, após os Estados Unidos atacarem seu país e capturarem o ex-presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Desde então, Rodríguez iniciou uma série de mudanças significativas no governo venezuelano.

As primeiras movimentações no poder

Nos primeiros dias de governo, Delcy Rodríguez alterou boa parte dos responsáveis pelos ministérios e funções próximas ao poder executivo. Ela modificou a composição do gabinete presidencial e do responsável pela Guarda de Honra Presidencial, retirou aliados de Maduro da primeira linha política e começou a reconfigurar as relações internacionais do país.

Um dos momentos mais simbólicos foi seu encontro em Caracas com o diretor da CIA, Jon Ratcliffe, seguido pela assinatura de um acordo que permitirá aos Estados Unidos comercializar até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano. Paradoxalmente, enquanto estabelece essas novas relações, Rodríguez continua denunciando o que chama de "sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos da América do Norte", referindo-se a Maduro e Flores.

O dragão de duas cabeças: a aliança familiar

Para compreender Delcy Rodríguez, é essencial entender sua relação com seu irmão, Jorge Rodríguez. Enquanto Delcy não foi uma figura relevante no governo de Hugo Chávez, Jorge construiu fortes vínculos no chavismo desde o princípio. Ele deixou sua clínica psiquiátrica para assumir cargos importantes como reitor do Conselho Nacional Eleitoral, vice-presidente executivo, prefeito do Município Libertador e, atualmente, presidente da Assembleia Nacional.

O jornalista César Bátiz, diretor do portal venezuelano El Pitazo, define a relação entre os irmãos como "um dragão de duas cabeças". Segundo ele, "o maior aliado de Delcy Rodríguez é seu irmão. Eles têm uma agenda". Andrés Izarra, ex-ministro de Chávez e Maduro, complementa: "Jorge acumulou o controle legislativo e os canais de negociação. Delcy ficou com a vice-presidência, a economia e as relações exteriores".

O círculo de confiança: técnicos e economistas

O círculo mais próximo de Delcy Rodríguez, além de seu irmão, é formado por pessoas com perfil técnico e econômico. Mariano de Alba, pesquisador venezuelano associado ao Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, destaca que este é "o governo mais tecnocrata que se poderia esperar dentro do chavismo".

Entre os nomes principais estão:

  • Félix Plasencia: atual embaixador da Venezuela no Reino Unido e enviado a Washington para mediar a reabertura da Embaixada da Venezuela nos Estados Unidos.
  • Calixto Ortega Sánchez: vice-presidente setorial da Economia e ex-presidente do Banco Central da Venezuela.
  • Román Maniglia: presidente da Pequiven, a corporação estatal de produtos petroquímicos.
  • Anabel Pereira: vice-presidente do Banco Central e ministra da Economia e Finanças.

As nomeações estratégicas e as mensagens políticas

Delcy Rodríguez fez nomeações significativas que enviam mensagens claras sobre sua direção. Gustavo González foi nomeado Comandante-Geral da Guarda de Honra Presidencial e principal responsável pela Direção Geral de Contrainteligência Militar, tornando-se "a mão militar mais forte de Delcy", segundo Bátiz.

Outra movimentação simbólica foi a saída de Álex Saab do Ministério das Indústrias e Produção Nacional. Saab era um empresário controverso, muito vinculado a Maduro, e sua remoção é interpretada como uma mensagem para o ex-presidente. Izarra analisa: "Esta saída pode ser lida como uma concessão aos Estados Unidos, mas também como uma bomba-relógio".

Os desafios do "chavismo 3.0"

Maryhen Jiménez, doutora em Ciências Políticas da Universidade de Oxford, questiona se estamos diante de um "chavismo 3.0". Ela explica que a elite autoritária venezuelana enfrenta diversos dilemas: "manter o controle, satisfazer as exigências dos Estados Unidos e conseguir uma reconfiguração que permita sobreviver a esta conjuntura".

O paradoxo é evidente: o chavismo sempre se identificou como anti-imperialista, mas agora precisa conviver com a tutela dos Estados Unidos. Jiménez destaca que este é "um equilíbrio muito frágil" entre as diferentes facções do chavismo, as bases chavistas e as exigências de Washington.

O caminho à frente: sobrevivência e adaptação

Para Izarra, o objetivo principal da nova formação de Delcy Rodríguez é simplesmente sobreviver. Por isso, ela "não se pode dar ao luxo de se rodear de pessoas leais a Maduro ou com agenda própria". Mariano de Alba destaca que existe uma diferença fundamental em relação à velha guarda militar chavista: o objetivo agora é "conseguir resultados, oferecer maior garantia de um melhor governo, maior eficiência e melhoria econômica".

Entre os principais desafios que Rodríguez enfrentará estão:

  1. Manter o equilíbrio com Diosdado Cabello, que controla o aparato de segurança.
  2. Satisfazer Washington sem perder a fachada de soberania necessária para sobreviver internamente.
  3. Evitar a pressão do povo ou da oposição, se encontrarem espaço para desafiá-la.

Delcy Rodríguez ainda está sob sanções da União Europeia por atos contra a democracia e violações dos direitos humanos. No entanto, ela parece ter iniciado mudanças que agradam a Donald Trump, enquanto mantém o discurso de defesa do "sequestrado" Maduro. Como resume Jiménez, a Venezuela está em "um momento incerto, também para o governo", e o rumo que Rodríguez seguirá dependerá de sua capacidade de navegar neste complexo tabuleiro político.