China investiga generais de alto escalão em nova onda de purgas militares anticorrupção
Um editorial publicado no PLA Daily, o jornal oficial do Exército Popular de Libertação (EPL) da China, indica que as investigações anunciadas neste sábado contra Zhang Youxia, assim como contra o chefe do Departamento do Estado-Maior Conjunto da Comissão Militar Central (CMC), Liu Zhenli, demonstram claramente que não há tolerância na luta contra a corrupção nas Forças Armadas chinesas.
Acusações graves contra altos comandantes
Zhang Youxia, de 75 anos, ocupa a posição de primeiro vice-presidente da CMC, o que o coloca como o número 2 militar do país, com uma patente apenas abaixo da de Xi Jinping, que lidera o órgão máximo do Exército. Ele também é um dos 24 membros do Politburo, o segundo escalão de comando do Partido Comunista Chinês (PCC).
O texto, também divulgado pela agência oficial Xinhua, afirma que Zhang e Liu traíram profundamente a confiança que lhes foi depositada e violaram gravemente o sistema de responsabilidade suprema que reside no presidente da CMC, Xi Jinping.
O artigo acusa os dois generais de:
- Agravarem os problemas políticos e de corrupção que ameaçam a autoridade absoluta do Partido sobre as Forças Armadas.
- Mancharem a imagem e a autoridade dos líderes da Comissão Militar Central.
- Causarem graves danos aos esforços para reforçar a lealdade política no Exército.
Segundo o documento, essas ações tiveram um impacto negativo significativo para o Partido, o país e o próprio Exército, prejudicando o ambiente político das Forças Armadas e a preparação geral para o combate.
Objetivo das purgas militares de Xi Jinping
Além de revelar as acusações contra os dois generais, o editorial enfatiza o objetivo das purgas militares promovidas por Xi Jinping. O texto afirma que quanto mais o Exército combate a corrupção, mais forte e puro ele se torna, com maior capacidade de combate.
O PLA Daily escreve que, se a corrupção for erradicada de forma profunda, as Forças Armadas serão mais capazes e terão mais confiança em suas operações.
Contexto histórico e relações pessoais
Zhang Youxia era considerado uma figura-chave nos planos de Xi para modernizar as Forças Armadas e também o aliado militar mais próximo do presidente chinês. Essa proximidade se deve, em parte, ao fato de que os pais de ambos – o general Zhang Zongxun e o vice-primeiro-ministro Xi Zhongxun – lutaram juntos na guerra civil que culminou na fundação da República Popular da China, em 1949.
De acordo com fontes anônimas citadas pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post, a acusação contra Zhang – que teria sido detido na última segunda-feira – envolve:
- Corrupção.
- Falha no controle de colaboradores próximos e familiares.
- Não comunicação imediata dos problemas à cúpula do Partido Comunista Chinês.
Ausências e especulações
Tanto Zhang quanto Liu, heróis de guerra condecorados e os únicos membros da liderança da CMC com experiência real de combate – ambos participaram das campanhas contra o Vietnã no fim dos anos 1970 – estiveram ausentes de um seminário do PCC presidido por Xi Jinping nesta semana. Essa ausência gerou especulações sobre seu paradeiro antes do anúncio oficial das investigações.
Histórico das purgas militares
Desde que chegou ao poder, em 2012, Xi Jinping promoveu sucessivas purgas no alto comando das Forças Armadas. O objetivo é duplo: combater a corrupção em suas fileiras e reforçar a lealdade dos comandantes militares ao PCC e à sua liderança.
Durante o terceiro mandato de Xi, iniciado em 2022, como consequência dessas purgas, o número de membros da CMC foi reduzido de sete para quatro. Essa é a estrutura mais enxuta desde o fim do maoísmo, em 1976.
Comandantes de diferentes ramos das Forças Armadas, comissários políticos e até ministros da Defesa estiveram na mira nos últimos anos. Um ponto culminante ocorreu em outubro do ano passado, quando as autoridades chinesas anunciaram a expulsão do Exército e do PCC de até nove generais.
Caso notório: He Weidong
O caso mais notório foi o de He Weidong, que chegou a ser o número 3 do Exército após uma ascensão meteórica em 2022. Depois de se posicionar logo atrás de Xi Jinping e Zhang Youxia na hierarquia militar, ele desapareceu da cena pública em março de 2025, antes de ser formalmente acusado de corrupção.
A expulsão de He Weidong do EPL e do PCC foi histórica, pois ele se tornou o primeiro vice-presidente uniformizado da CMC a ser destituído durante o exercício do cargo em quase seis décadas. O último caso semelhante havia sido o de He Long, em 1967, durante a Revolução Cultural chinesa (1966–1976).
Outros líderes expurgados recentemente
Outros líderes militares de destaque recentemente expurgados incluem:
- Miao Hua, um almirante considerado próximo de Xi Jinping.
- Os ex-ministros da Defesa Wei Fenghe (2018–2023) e Li Shangfu (março–outubro de 2023).
- Os comandantes da Força de Foguetes Li Yuchao e Wang Houbin.
Essas ações contínuas demonstram a determinação implacável de Xi Jinping em purgar o Exército de elementos corruptos e consolidar seu controle absoluto sobre as Forças Armadas chinesas, reforçando a mensagem de que nenhum oficial, por mais alto que seja seu posto, está imune às investigações anticorrupção.