Brasileiros na Rússia enfrentam apagões digitais e buscam alternativas às redes sociais
Brasileiros na Rússia driblam bloqueios digitais com alternativas

Brasileiros na Rússia enfrentam apagões digitais e buscam alternativas às redes sociais

O cenário digital na Rússia tem se tornado cada vez mais restritivo para brasileiros residentes no país, que precisam encontrar formas criativas para manter a comunicação. Com o WhatsApp parando de funcionar, seguido por Instagram e Facebook, e o Telegram sofrendo bloqueios contínuos, a população caminha para um isolamento digital forçado pelo governo de Vladimir Putin.

Cerco digital se intensifica desde invasão da Ucrânia

Desde a invasão da Ucrânia em 2022, o cerco do governo russo ao uso livre da internet vem se intensificando drasticamente. Em todo o território, incluindo grandes metrópoles como Moscou e São Petersburgo, os apagões digitais se tornaram constantes. Sites considerados "pouco confiáveis" pelo regime são proibidos, e serviços básicos como chamar táxis, fazer pagamentos ou realizar ligações frequentemente ficam indisponíveis sem aviso prévio.

A busca por alternativas chegou a impulsionar a venda de equipamentos considerados obsoletos em muitas partes do mundo. Walkie-talkies, telefones fixos, pagers, mapas impressos e antigos tocadores de MP3 voltaram a ganhar relevância no cotidiano dos russos e estrangeiros residentes no país.

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VPNs na mira do Kremlin

Nesta semana, o Kremlin passou a mirar especificamente as VPNs (redes privadas virtuais), ferramentas utilizadas por usuários para contornar a censura digital do regime. "A meta é reduzir o uso", afirmou o ministro da Digitalização, Maksut Shadayev, através do aplicativo MAX, desenvolvido pela Agência Russa de Telecomunicações (Roskomnadzor) e propagandeado como "seguro".

Segundo Shadayev, as medidas destinam-se a "restringir o acesso a uma série de plataformas estrangeiras" que supostamente não respeitariam a legislação russa em termos de segurança e combate ao terrorismo. Até meados de janeiro, a Rússia havia bloqueado mais de 400 VPNs, representando um aumento de 70% em relação ao final do ano passado, conforme dados do jornal Kommersant.

A pressão sobre as VPNs levou inclusive a gigante Apple a retirar da plataforma App Store os aplicativos que possibilitavam o acesso a sites censurados pelo regime de Putin. Enquanto isso, os apagões na internet móvel pelo país, ainda não sistemáticos devido à dificuldade técnica da rede descentralizada, podem se tornar mais frequentes.

Telegram: o último reduto ameaçado

Em meio à dificuldade cada vez maior para acessar ferramentas de comunicação de outros países, os russos aguardam o próximo golpe no que seria o último reduto de internet livre do país: o Telegram. O bloqueio total do aplicativo poderia ocorrer já nesta quarta-feira, conforme noticiado por alguns meios de comunicação russos, embora as autoridades possam reverter a decisão ou adiá-la para depois das eleições parlamentares de setembro.

Desenvolvido pelo russo Pavel Durov, hoje radicado nos Emirados Árabes, o Telegram se tornou um dos principais meios de comunicação utilizados no país, com cerca de 100 milhões de usuários. Há anos vem sendo usado por soldados em ação na Ucrânia para comunicação com as famílias e por prefeituras de cidades russas próximas à zona de conflito para alertar a população sobre ataques aéreos.

No mesmo comunicado sobre VPNs, o ministro da Digitalização adiantou que houve tentativas "em vão" de chegar a um acordo com o Telegram para impor custos extras caso o tráfego de dados internacionais mensal ultrapassasse 15 gigabytes.

Reações críticas e manifestações

O descontentamento com as restrições digitais vem levando a manifestações críticas de figuras até então alinhadas com o regime de Putin. O governador de Belgorod, região na fronteira com a Ucrânia, afirmou que as interrupções estavam causando "mortes desnecessárias" em meio ao conflito.

Vídeos que circulam online mostram soldados russos da linha de frente, mascarados para dificultar a identificação, dizendo que o aplicativo de mensagens é crucial para as operações e pedindo que o Kremlin recue da decisão. As repercussões também chegaram à câmara baixa do Parlamento em Moscou, raramente crítica ao governo, que colocou em votação um requisito para que o Kremlin justificasse o bloqueio do Telegram.

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A proposta foi rejeitada, com 102 votos contrários, mas os 77 favoráveis expuseram o desconforto com a medida. Cerca de 25 pedidos de "autorizações para concentrações" de manifestantes contra as restrições ao Telegram foram negados pelas autoridades na semana passada, o que não impediu a prisão de 12 pessoas em um protesto em Moscou em favor da liberdade de expressão.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, ironizou a situação nas redes sociais: "É um retrocesso de 100 anos. É melhor que eles comecem logo a usar correspondência em papel, telégrafos e cavalos. É esse o tipo de civilização que eles têm. Talvez até o Putin goste disso. Talvez seja assim que ele se sinta jovem de novo".

A justificativa oficial do Kremlin é que as restrições à internet móvel são necessárias para combater os drones ucranianos, mas especialistas alertam que as autoridades têm a tecnologia para impor um apagão digital simultâneo em todo o país, seguindo modelos já observados em lugares como o Irã.