Bangladesh realiza eleições históricas após revolta juvenil e queda de governo autoritário
Milhões de eleitores compareceram às urnas nesta quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, no que representa a primeira eleição realizada após a significativa revolta liderada por jovens da chamada "Geração Z" em Bangladesh. O pleito marcou um momento crucial para o país, que busca restaurar a estabilidade política e econômica após anos de tensão e repressão.
Contexto político e queda do governo anterior
A votação ocorreu aproximadamente dois anos após os protestos massivos de 2024, que culminaram na queda da então primeira-ministra Sheikh Hasina. Os movimentos de oposição, impulsionados por jovens ativistas, desafiaram um governo acusado de autoritarismo, resultando em uma repressão violenta que, segundo relatos da Organização das Nações Unidas (ONU), deixou cerca de 1.400 mortos. O episódio mergulhou Bangladesh em uma profunda crise, com Hasina fugindo para a Índia e o país sendo governado interinamente pelo Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus desde então.
Alta participação eleitoral e resultados decisivos
Com aproximadamente 128 milhões de pessoas aptas a votar, a eleição registrou uma participação considerada elevada, refletindo o anseio da população por mudanças. Analistas políticos destacaram que um resultado claro era fundamental para a reconstrução da estabilidade em uma nação de 175 milhões de habitantes, severamente afetada por meses de violência política e impactos econômicos.
Os resultados oficiais apontaram uma vitória esmagadora da coalizão liderada pelo Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), que conquistou 209 das 300 cadeiras do Parlamento, garantindo assim uma maioria de dois terços. Em contraste, o Partido Nacional Cidadão, formado por jovens ativistas que estiveram na linha de frente dos protestos contra Hasina, obteve um desempenho modesto, vencendo apenas 5 das 30 cadeiras que disputou.
Mudanças no cenário político e reações
Com a ampla vitória, Tarique Rahman, de 60 anos, filho da ex-premiê Khaleda Zia e do ex-presidente Ziaur Rahman, está prestes a se tornar o novo primeiro-ministro. Seu partido era o principal rival do governo derrubado em 2024, simbolizando uma significativa mudança no poder.
Além da disputa parlamentar, os eleitores também participaram de um referendo sobre reformas constitucionais. Dados parciais divulgados pelo jornal The Daily Star indicam que 73% dos votos foram favoráveis às mudanças, que incluem propostas como:
- Limite de mandatos para o primeiro-ministro
- Fortalecimento do Poder Judiciário
- Criação de um governo interino neutro durante períodos eleitorais
Mais de 2 mil candidatos e pelo menos 50 partidos participaram do processo eleitoral. A Liga Awami, que governou o país por mais de 15 anos até a queda de Hasina, foi impedida de concorrer, o que gerou críticas da ex-líder. Em comunicado divulgado após o fechamento das urnas, Hasina classificou a eleição como uma "farsa cuidadosamente planejada", realizada sem a verdadeira participação dos eleitores, e afirmou que apoiadores de seu partido rejeitaram o processo.
Clima de esperança e segurança durante a votação
Em diversas regiões do país, eleitores formaram filas antes da abertura das urnas, muitos expressando entusiasmo por votarem livremente pela primeira vez em mais de uma década. "Estou entusiasmado porque estamos a votar livremente depois de 17 anos", declarou um eleitor identificado como Hossain, que aguardava na fila. "Os nossos votos vão fazer a diferença e terão significado."
Embora eleições tenham ocorrido durante o mandato de Hasina, esses pleitos foram marcados por boicotes e intimidações à oposição, segundo analistas e críticos. Desta vez, as autoridades mobilizaram cerca de 1 milhão de agentes de segurança para garantir a ordem, resultando em um processo sem violência generalizada, embora incidentes isolados tenham sido registrados.
O desempenho limitado dos jovens ativistas nas urnas sugere que, apesar de seu papel crucial na derrubada do governo anterior, a transição para o poder político formal ainda enfrenta desafios. A eleição representa um passo importante na consolidação democrática de Bangladesh, mas a implementação das reformas constitucionais e a capacidade do novo governo em abordar as questões econômicas e sociais serão testadas nos próximos meses.