Especialista detalha consequências da suspeição de Toffoli no caso Banco Master
Consequências da suspeição de Toffoli no caso Banco Master

Especialista detalha consequências da suspeição de Toffoli no caso Banco Master

Caso o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli fosse declarado suspeito para prosseguir na relatoria do processo do Banco Master, todos os atos por ele praticados durante a investigação seriam considerados nulos, conforme explica o professor de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF), Gustavo Sampaio. O especialista esclarece que a suspeição é um instrumento jurídico que questiona a imparcialidade de um magistrado quando existem indícios de vínculo ou interesse que possam comprometer sua isenção em determinado processo.

Redistribuição da relatoria e preservação dos atos

Na quinta-feira (12), o ministro Toffoli deixou a relatoria das investigações do caso Banco Master, e o processo foi redistribuído na Corte, passando a ter o ministro André Mendonça como novo relator. Como Toffoli se afastou voluntariamente da relatoria, os atos por ele praticados durante a investigação foram preservados, evitando assim a anulação que ocorreria em caso de declaração formal de suspeição.

De acordo com o artigo 285 do regimento interno do STF, "afirmada a suspeição pelo arguido, ou declarada pelo Tribunal, ter-se-ão por nulos os atos por ele praticados". Sampaio reforça que "quando se declara uma suspeição, os atos praticados sobre a batuta daquele magistrado são considerados nulos", destacando o impacto processual dessa medida.

Crescente pressão para suspeição

A pressão para que Toffoli declarasse suspeição na relatoria do caso aumentou significativamente após a divulgação do relatório da Polícia Federal (PF), que trouxe menções sobre o ministro nos dados do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no esquema do Banco Master. Embora o documento enviado diretamente ao presidente do STF, Edson Fachin, não tenha solicitado formalmente a suspeição de Toffoli, ele apresentou trechos do regimento interno do Supremo sobre declaração de suspeição e um artigo da Lei Orgânica da Magistratura Nacional que trata de indícios de crimes cometidos por magistrados.

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo que o órgão formalize a suspeição do ministro, citando o vínculo comercial entre Toffoli e o grupo de Vorcaro como fator comprometedor da imparcialidade. A PF investiga se o grupo econômico tinha conhecimento de que Toffoli era sócio da empresa Maridt no momento das transações financeiras envolvendo o Resort Tayayá, que recebeu indiretamente R$ 20 milhões de fundos geridos pela Reag Investimentos, gestora investigada por suposta participação no esquema de inflagem patrimonial do Banco Master.

Como funciona o processo de suspeição

Existem várias maneiras de solicitar o início de um processo de suspeição:

  1. Pelo Procurador-Geral da República
  2. Pelo presidente do Supremo Tribunal Federal
  3. Pela defesa dos acusados
  4. Por autodeclaração do próprio ministro envolvido

O professor Sampaio explica que a suspeição pode ser solicitada não apenas por ilegalidades comprovadas, mas também "por razões de foro íntimo", quando o magistrado reconhece subjetivamente fatores que possam afetar sua imparcialidade. Uma vez feito o pedido, segue-se um rito processual específico:

  • O presidente do STF analisa o pedido e pode rejeitá-lo imediatamente
  • Caso aceite a discussão, o tema vai ao plenário
  • Os ministros votam e, por maioria, decidem sobre a declaração de suspeição
  • Se rejeitada, o ministro mantém a relatoria
  • Se acolhida, realiza-se sorteio para nova relatoria

Diferença entre suspeição e impedimento

Além da suspeição, existe outro instrumento jurídico para preservar a imparcialidade judicial: o impedimento. Enquanto a suspeição tem caráter subjetivo, baseando-se no foro íntimo do juiz (como amizade, inimizade, recebimento de presentes ou ajuda financeira às partes), o impedimento envolve fatores objetivos e absolutos de parcialidade, como parentesco de primeiro, segundo ou terceiro grau entre o magistrado e as partes do processo.

Repercussões políticas e institucionais

Colegas de Toffoli no STF afirmaram que ele deveria ter recusado a relatoria do inquérito do Banco Master desde o início, evitando assim as medidas controversas contra a PF que chamaram atenção da imprensa e desencadearam investigações sobre suas possíveis relações com Daniel Vorcaro. No âmbito do Executivo, integrantes do Planalto avaliaram que a crise envolvendo Toffoli e o Banco Master já contaminou a imagem do Supremo e sugeriram, nos bastidores, que o ministro tirasse licença e se afastasse temporariamente da Corte para conter o desgaste institucional.

O ministro Toffoli negou qualquer irregularidade e afirmou que não conhecia os gestores dos fundos compradores no momento da operação envolvendo sua empresa. A PGR, por sua vez, arquivou representação que pedia seu afastamento da investigação do Banco Master, mantendo a situação processual dentro dos parâmetros regimentais do Supremo Tribunal Federal.