José María Balcázar assume presidência interina do Peru após destituição de antecessor
Balcázar é eleito presidente interino do Peru até julho

Esquerdista assume comando do país até eleições de abril

O Peru vive mais um capítulo em sua crise política crônica com a eleição de José María Balcázar como presidente interino. O congressista do partido de esquerda Peru Livre foi escolhido pelos parlamentares na noite de quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, assumindo automaticamente a chefia do Estado após a destituição de seu antecessor, José Jerí, por acusações de corrupção.

Oitavo mandatário desde 2016

Balcázar se torna o oitavo chefe de Estado peruano desde 2016, um número que ilustra a profunda instabilidade institucional que assola o país sul-americano. Segundo as leis peruanas, quando a presidência fica vaga, o presidente do Parlamento deve assumir as responsabilidades executivas.

O advogado de 83 anos recebeu 60 votos em uma sessão extraordinária do Congresso, derrotando outros três candidatos: María del Carmen Alva, do partido de centro-direita Ação Popular; Edgard Reymundo, socialista de longa trajetória; e Héctor Acuña, representante independente questionado por conflitos de interesse.

Governo transitório até julho

Em seu primeiro discurso no Parlamento, Balcázar jurou "exercer fielmente o cargo de presidente da República" e prometeu garantir uma transição democrática pacífica e transparente. "Nestes poucos meses que nos restam, vamos garantir ao povo do Peru que vai acontecer uma transição democrática e eleitoral pacífica, transparente, que não deixe nenhum tipo de dúvida nas eleições", afirmou o novo mandatário.

Seu governo interino deverá durar até 26 de julho de 2026, data da posse do vencedor das eleições presidenciais marcadas para 12 de abril. Um número recorde de mais de 30 candidatos pretende disputar a presidência, em pleito que também marcará o retorno a um Parlamento bicameral.

Polêmicas e investigações

A eleição de Balcázar não ocorre sem controvérsias. O congressista já foi investigado por apropriação indevida de recursos e suposta corrupção, e causou indignação em 2023 ao afirmar no Parlamento que "as relações sexuais precoces ajudam no desenvolvimento psicológico futuro da mulher", durante debate sobre a proibição do casamento infantil.

A Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos emitiu comunicado alertando que "suas declarações justificando as relações sexuais precoces violam padrões de proteção da infância e contradizem a obrigação do Estado de prevenir a violência sexual".

Destituição do antecessor

José Jerí, de 39 anos, foi afastado do cargo na terça-feira (17) por "má conduta no exercício de suas funções e falta de idoneidade", em um processo expresso no Congresso. Ele havia assumido a presidência em outubro, substituindo Dina Boluarte, destituída em julgamento político relâmpago.

Jerí caiu em desgraça após o Ministério Público abrir investigação contra ele por suposto "tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses", revelada após reunião secreta com empresário chinês que faz negócios com o governo. Em fevereiro, outra investigação por "tráfico de influências" surgiu por sua suposta intervenção na contratação de nove mulheres para o governo.

Crise institucional profunda

O Peru enfrenta desde 2016 uma crise de instabilidade institucional marcada por investigações contra chefes de Estado. Atualmente, três ex-presidentes estão presos por corrupção em prisão especial ao leste de Lima:

  • Alejandro Toledo
  • Ollanta Humala
  • Pedro Castillo (condenado a mais de 11 anos por tentativa de golpe)

O cientista político Fernando Tuesta, da Universidade Católica, avalia que "a crise pode ser um peso eleitoral para os partidos que colocaram Jerí na presidência, como o Força Popular, de Keiko Fujimori".

Enquanto isso, o país aguarda as eleições de abril, que podem representar um novo capítulo - ou mais do mesmo - na turbulenta trajetória política peruana.