O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou a tensão geopolítica a um novo nível ao cogitar publicamente a anexação da Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. A possibilidade, que inclui o uso de força militar conforme justificativa de segurança nacional, foi confirmada pela Casa Branca à agência Reuters em janeiro de 2026, reacendendo temores na Europa e colocando a aliança da Otan sob forte pressão.
O que está por trás do interesse estratégico na Groenlândia?
Para o cientista político e CEO da Arko International, Thiago Aragão, o território gelado possui um valor estratégico central. A Groenlândia concentra recursos minerais valiosos e um potencial energético significativo, além de ocupar uma posição geográfica sensível no Atlântico Norte. A ofensiva retórica de Trump, portanto, não é apenas uma pressão sobre a Dinamarca, um aliado histórico, mas um teste direto aos limites e à coesão das alianças ocidentais.
Aragão destaca um paradoxo inédito: a simples admissão pública por um membro da Otan da possibilidade de atacar outro aliado. “A Otan não foi concebida para lidar com um ataque interno. Isso não estava previsto em sua carta de fundação”, avalia o especialista. Este cenário cria uma fissura institucional com potencial para desestabilizar a aliança militar mais importante do Ocidente.
Rússia observa a crise como uma oportunidade estratégica
Na análise geopolítica, qualquer movimento que fragilize a Otan atende diretamente aos interesses da Rússia. Segundo Thiago Aragão, uma crise envolvendo a Groenlândia seria vista em Moscou como a concretização de um objetivo antigo: enfraquecer a aliança atlântica sem engajar em um conflito militar direto.
Nesse contexto, a Rússia teria todo o incentivo para estimular politicamente a escalada americana, mesmo que de forma indireta. A estratégia ampliaria o desconforto entre os europeus e testaria a unidade do bloco, beneficiando a posição global de Vladimir Putin.
Quais são os limites reais entre retórica e ação?
Apesar do tom agressivo, as opções práticas à disposição de Trump são consideradas restritas pelos analistas. Uma invasão militar direta equivaleria a uma declaração de guerra contra um membro da Otan, com custos políticos e militares de proporções catastróficas. A via da negociação, por outro lado, esbarra na resistência firme do governo dinamarquês e da população groenlandesa, que rejeita a ideia de anexação.
Existe, contudo, um caminho alternativo menos explosivo. Os Estados Unidos já mantêm uma presença militar na Groenlândia, através da Base Aérea de Thule. Uma expansão silenciosa dessa infraestrutura e influência poderia garantir maior controle regional sem a necessidade de uma anexação formal, minimizando o atrito diplomático.
Para Thiago Aragão, a insistência de Trump no confronto aberto tem um componente midiático marcante. “Há um componente fortemente midiático. Trump gosta do impacto, do gesto bombástico, da frase que domina o noticiário”, afirma. Uma manobra discreta não produziria o efeito espetacular que o ex-presidente busca, mesclando cálculo estratégico com performance política para seu eleitorado interno.
O resultado final é uma combinação perigosa que, ao buscar demonstrar força domesticamente, amplia a instabilidade internacional e adiciona um novo foco de tensão a um cenário global já complexo, marcado por disputas entre Estados Unidos, China e Rússia. A crise potencial na Groenlândia emerge, assim, como um teste decisivo para a arquitetura de segurança do Ocidente.