Alemanha e França exigem renúncia de relatora da ONU para Palestina após fala polêmica
Alemanha e França pedem renúncia de relatora da ONU para Palestina

Alemanha e França pedem renúncia de relatora da ONU para Palestina após fala polêmica

A Alemanha se juntou à França em um pedido formal pela renúncia de Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados. A exigência ocorre após declarações da jurista italiana durante uma conferência em Doha, no Catar, que foram interpretadas como incitação ao ódio contra Israel e comparações inapropriadas com o regime nazista.

Acusações graves e defesa veemente

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou respeitar o sistema de relatores independentes da ONU, mas considerou a posição de Albanese "insustentável". Em publicação na rede social X, ele condenou as recentes declarações da relatora sobre Israel, somando-se a uma "longa lista de posições escandalosas" já manifestadas anteriormente.

Seu homólogo francês, Jean-Noël Barrot, foi ainda mais enfático, acusando Albanese de justificar os ataques do Hamas contra comunidades israelenses em outubro de 2023, que resultaram em aproximadamente 1.200 mortes e deram início ao conflito em Gaza. O chanceler francês também afirmou que a relatora teria comparado Israel ao Terceiro Reich, o que considerou "absolutamente inaceitável".

A controvérsia das declarações

Durante o fórum organizado pela emissora árabe Al Jazeera, Albanese referiu-se a um "inimigo comum" que teria possibilitado o que ela chamou de genocídio em Gaza. "Em vez de deter Israel, a maior parte do mundo o armou, deu a Israel desculpas políticas, proteção política e apoio econômico e financeiro", declarou a relatora, acrescentando que a humanidade estaria diante deste inimigo comum.

Posteriormente, em entrevista ao canal France 24, Albanese defendeu-se vigorosamente das acusações, classificando-as como "completamente falsas" e resultado de manipulação de suas palavras. "Eu nunca, jamais, jamais disse que 'Israel é o inimigo comum da humanidade'", afirmou a jurista, destacando que suas críticas são dirigidas a políticas governamentais específicas, não ao povo israelense como um todo.

Histórico de controvérsias e sanções

Francesca Albanese possui um histórico de declarações que geraram críticas de diversos governos e organizações. Em julho do ano passado, o Departamento de Estado americano impôs sanções contra ela por "antissemitismo descarado" e por supostamente travar uma guerra política e econômica contra Estados Unidos e Israel.

Em entrevista concedida em agosto, a relatora classificou as sanções como "uma medida ilegal do governo americano" e uma retaliação sem precedentes contra um especialista da ONU. Ela argumentou que a ação foi uma resposta ao seu último relatório, que questionava a responsabilidade do setor privado, incluindo empresas americanas, na economia da ocupação israelense.

Defesa da ONU e preocupações institucionais

Nesta sexta-feira, a porta-voz do escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas, Marta Hurtado, manifestou preocupação institucional durante coletiva de imprensa em Genebra. "Estamos muito preocupados. Tememos que funcionários, especialistas independentes e autoridades judiciais das Nações Unidas estejam sendo cada vez mais alvo de ataques pessoais, ameaças e desinformação", declarou Hurtado.

A representante da ONU destacou que tais ataques desviam a atenção das graves questões de direitos humanos que deveriam ser o foco principal dos debates internacionais. Relatores especiais como Albanese são especialistas independentes e não remunerados nomeados pelas Nações Unidas, com mandato para investigar e relatar sobre situações específicas de direitos humanos em todo o mundo.

Repercussão internacional ampliada

Além da Alemanha e França, o governo da República Checa também manifestou-se publicamente, escrevendo em seu perfil oficial no X que Albanese deveria perder o cargo. Segundo autoridades checas, a relatora teria chamado Israel de "inimigo comum da humanidade", acusação que ela nega categoricamente.

Na Assembleia Nacional francesa, vinte deputados assinaram uma carta solicitando a destituição de Albanese de suas funções na ONU. O documento reforça as críticas de que a relatora atuaria mais como "ativista política" do que como especialista imparcial, prejudicando assim a causa palestina que deveria defender.

O caso expõe as tensões profundas no sistema internacional de direitos humanos, onde especialistas independentes frequentemente enfrentam pressões políticas de governos com interesses conflitantes nas situações que investigam. A defesa da ONU a seus relatores busca preservar a independência e credibilidade do sistema, enquanto países membros questionam os limites da liberdade de expressão em contextos de conflitos internacionais sensíveis.