Um documentário exibido pelo Fantástico revelou a trajetória de extremos da Venezuela, um país que transitou da opulência de uma elite nos anos 1970 para uma crise política e econômica profunda sob o comando de Nicolás Maduro. A reportagem, baseada em depoimentos de ex-aliados do regime, desnuda os bastidores de uma nação que já foi comparada a potências do Oriente Médio devido à sua riqueza petrolífera.
O Boom do Petróleo e o Nascimento da 'Venezuela Saudita'
A história recente da Venezuela foi radicalmente transformada pela descoberta da maior reserva de petróleo do planeta. De uma economia baseada na agricultura e exportação de café e cacau, o país mergulhou nos anos 70 em uma era de prosperidade impulsionada pelo ouro negro. A produção chegou a impressionantes 3 milhões de barris por dia, e uma pequena parcela da população passou a usufruir de uma qualidade de vida comparável à de capitais europeias como Paris.
Contudo, essa riqueza monumental não foi distribuída. Enquanto uma elite reduzida vivia em meio ao luxo em Caracas, a maioria da população enfrentava a pobreza, habitando em favelas que cresciam ao lado de arranha-céus modernistas. Este cenário de contrastes agudos rendeu ao país o apelido de "Venezuela Saudita", mas também criou um terreno fértil para o descontentamento social.
A Revolução Bolivariana e a Ascensão de Maduro
A imensa desigualdade foi o combustível para a revolução liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez no início dos anos 90. Após uma tentativa de golpe em 1992, Chávez foi eleito presidente em 1998, tendo ao seu lado, desde o início, Nicolás Maduro. O petróleo era a peça central do plano da revolução bolivariana, financiando programas sociais ambiciosos.
Segundo Rafael Ramirez, ex-ministro do Petróleo, nove milhões de famílias ganharam acesso à moradia e a pobreza teria caído de 70% para 7% durante o governo Chávez. Enquanto isso, Maduro, como chanceler, tecia alianças com Cuba, Rússia e Irã. Com a saúde de Chávez fragilizada, Maduro foi designado seu sucessor, assumindo a presidência após a morte do líder carismático.
Autoritarismo, Repressão e Isolamento Internacional
Apesar de chegar ao poder como herdeiro político de Chávez, Maduro, ao longo de seus 12 anos de governo, consolidou um regime autoritário. Eleito por margem apertada e enfrentando desconfiança interna, ele recorreu à repressão e ao controle das instituições. O general Manuel Figuera, ex-chefe da inteligência, compara a polícia política do regime à GESTAPO de Hitler.
Até antigos aliados, como o próprio Rafael Ramirez, foram perseguidos. "Ele mandou me prenderem. Porque ele achou que eu era uma pessoa que poderia tomar o lugar dele", relata Ramirez. A procuradora-geral Luisa Ortega, que rompeu com o governo, denunciou que mais de oito mil venezuelanos foram executados por forças estatais.
A crise se aprofundou com a decadência da estatal PDVSA, corroída por corrupção, e com as sanções internacionais, principalmente dos Estados Unidos. Em 2019, o então presidente Donald Trump tentou derrubar Maduro ao reconhecer Juan Guaidó como líder legítimo, mas a tentativa fracassou. John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, revela que russos e cubanos aconselharam Maduro a permanecer no poder para evitar o colapso total do regime.
Uma Nova Relevância Geopolítica
O cenário internacional voltou a mudar a favor de Maduro com a guerra na Ucrânia. As sanções ao petróleo russo levaram o governo Joe Biden a suspender restrições ao crude venezuelano, devolvendo relevância estratégica ao país e ao seu presidente. Esta abertura do Ocidente ocorre mesmo com a sombra de um possível retorno de Donald Trump, interessado em baixar os preços dos combustíveis.
Para se manter no poder, Maduro investiu pesado em propaganda, criando até um super-herói animado, o "Super Bigode", para cultivar sua imagem de defensor do povo. Agora, a Venezuela vive um momento de expectativa: a população continuará apoiando este "herói" ou finalmente virará a página desta conturbada história marcada pelo petróleo, pela desigualdade e pela luta pelo poder.