Especialista analisa pontos nevrálgicos do desfile de Lula no Carnaval e alerta para possível reação do TSE
Desfile de Lula no Carnaval: especialista aponta riscos e análise do TSE

Análise detalhada do desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula aponta referências políticas e alerta para possível reação do TSE

O historiador Lipe Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou uma análise minuciosa do desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A apresentação, que cruzou a avenida cantando a saga do atual mandatário, já nasceu sob o olhar atento do Tribunal Superior Eleitoral, especialmente sensível em um ano de disputa eleitoral.

Representações da trajetória pessoal e política

O desfile iniciou com um pé no realismo fantástico, apresentando alegorias e fantasias que retratavam a difícil infância de Lula, marcada pela fome e pela esperança. A sequência mostrou a retirada de dona Lindu e seus filhos do sertão escaldante, para depois adentrar na trajetória política do homenageado.

É justamente nesses setores que o debate político e jurídico promete render frutos, conforme aponta o especialista. A ala 12, intitulada ‘Estrela Vermelha’, trouxe a criação do Partido dos Trabalhadores após as greves sindicais do ABC paulista. A indumentária vermelha com uma estrela na parte frontal fez clara referência visual ao PT, embora a escola tenha evitado a mensagem explícita ao ignorar a sigla do partido dentro do símbolo retratado.

Políticas públicas e questionamentos eleitorais

Alas subsequentes como ‘A fome tem pressa’ (nº 14), ‘Acesso à luz elétrica’ (nº 15), ‘O sonho da casa própria’ (nº 16), ‘Tem filho de pobre virando doutor’ (nº 17) e ‘Brasil terra indígena’ (nº 18) apresentaram representações de realizações e políticas públicas desenvolvidas em gestões anteriores de Lula.

"A pergunta que se faz é fundamental: trata-se de representações histórico-culturais sobre políticas públicas ou uma forma sutil de sugerir que o presidente merece continuar a governar devido ao seu histórico de inclusão social?", questiona Vieira em sua análise.

Referências políticas explícitas e o contexto eleitoral

A alegoria 4, ‘O Brasil muda de cara’, trouxe a figura do palhaço Bozo com tornozeleira eletrônica, em clara referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A comissão de frente ‘O amor venceu o medo’ apresentou um jogo de passagem da faixa presidencial, desviando a atenção do homenageado para quem poderia ter ficado de fora do desfile.

O Tribunal Superior Eleitoral, com base na Constituição e legislação específica, chancela a livre manifestação artística, inclusive de fatos e eventos políticos de importante controvérsia. No entanto, isso não significa um cheque em branco para o cometimento de ilícitos eleitorais, especialmente em um ano tão sensível.

Mudanças no TSE e possíveis consequências jurídicas

A partir de junho de 2026, por rodízio previsto, a presidência e a vice-presidência do TSE passam a ser ocupadas, respectivamente, pelos ministros do Supremo Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados ao STF durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Este momento será crucial, uma vez que o Brasil estará imerso na disputa eleitoral.

Caso a repercussão envolvendo a homenagem ao presidente Lula pela Acadêmicos de Niterói escale juridicamente, é possível que eventuais irregularidades sejam julgadas na representação junto ao TSE já em andamento, de autoria do Partido Novo e Missão. Alternativamente, pode ser protocolada uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), caso estejam presentes indícios de abuso econômico, político ou midiático.

A análise do historiador destaca como o desfile, embora artisticamente rico e culturalmente significativo, navega em águas turbulentas do ponto de vista jurídico-eleitoral. "A escola soube dosar as referências, mas em ano eleitoral, cada símbolo ganha peso adicional perante as instâncias de fiscalização", conclui Vieira.