Esquema Bilionário: Laranjas Ganhavam R$ 1,5 Mil em Fraude de Combustíveis e Lavagem de Dinheiro
Laranjas Ganhavam R$ 1,5 Mil em Fraude de Combustíveis

Uma complexa organização criminosa, especializada em adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro, foi desarticulada pela Polícia Federal após movimentar pelo menos R$ 82,8 milhões em cerca de dois anos. As investigações, que se concentraram em postos de combustíveis de Curitiba e Região Metropolitana, revelaram um esquema sofisticado que enganava consumidores e ocultava recursos ilícitos.

Como Funcionava o Esquema Criminoso

O modus operandi da organização envolvia duas principais frentes de fraude. A primeira consistia em fornecer menos combustível do que o indicado nas bombas, enquanto a segunda aumentava a quantidade de etanol adicionado à gasolina além dos limites legais. Essas práticas não apenas lesavam os consumidores, mas também geravam lucros ilícitos que alimentavam uma vasta rede de lavagem de dinheiro.

O Papel dos Laranjas no Esquema

As investigações da Polícia Federal destacaram o uso de laranjas, indivíduos de baixa renda ou em situação de informalidade, que emprestavam seus nomes para a abertura de empresas de fachada. Em troca, recebiam uma espécie de mesada de aproximadamente R$ 1,5 mil. Essas empresas eram instrumentalizadas para ocultar a origem criminosa dos recursos, servindo como uma camada inicial na dissimulação financeira.

A Estrutura de Lavagem de Dinheiro

O processo de lavagem seguia um fluxo bem definido, conforme detalhado pelo Ministério Público Federal:

  1. Colocação: O dinheiro proveniente de atividades ilícitas era depositado em espécie nos postos de combustíveis controlados pelo grupo.
  2. Dissimulação: Os valores eram coletados por carros-fortes e transferidos para contas de uma empresa de tecnologia, onde perdiam a identificação de origem.
  3. Integração: Os recursos eram finalmente direcionados para contas de pessoas vinculadas à organização, reinserindo-os na economia como se fossem legítimos.

Entre abril de 2020 e março de 2022, foram realizados 8.224 depósitos, evidenciando a escala operacional do esquema. O diretor de uma instituição de pagamento envolvida foi denunciado por crimes como lavagem de dinheiro e integração em organização criminosa.

Fraudes nos Combustíveis: Dados Alarmantes

Durante as investigações, agentes da Polícia Federal coletaram amostras de gasolina em 50 postos de Curitiba e região. Os resultados foram preocupantes:

  • 44 postos forneciam menos combustível do que o indicado na bomba, com variações de 1% a 8,1% a menos do que o pago pelo consumidor.
  • Apenas 6 amostras apresentavam a quantidade correta, conforme a nota fiscal.
  • 28 amostras tinham qualidade inferior à exigida pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
  • Em relação ao teor de etanol, 28 amostras continham de 35% a 79% de álcool, muito acima do limite máximo de 27% permitido na época.

Essas adulterações eram facilitadas por um aplicativo de celular, permitindo ajustes remotos nos sistemas dos postos. Além do crime em si, essas práticas causam danos diretos aos veículos dos consumidores e inflam artificialmente os lucros dos criminosos.

Conexões com o Crime Organizado

A investigação demonstrou que a fraude nos postos era a base de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado. As apurações tiveram início em 2023, quando um homem condenado por tráfico internacional e sua esposa passaram a ostentar bens de luxo em um condomínio de alto padrão em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O casal possuía mais de R$ 34 milhões sem origem lícita comprovada.

Os investigados se associaram a integrantes de uma empresa de produtos químicos e de uma distribuidora de petróleo, utilizando-a para comprar insumos como nafta e metanol, empregados em misturas ilegais de combustíveis. Em 2019, criaram uma distribuidora que, entre 2020 e 2023, declarou faturamento superior a R$ 7 bilhões, operando com recursos ilícitos.

Impactos Financeiros e Judiciais

O relatório final da Polícia Federal apontou uma quantidade colossal de depósitos fracionados em dinheiro após a aquisição dos postos pelo grupo criminoso. Enquanto postos fora do controle do grupo tiveram uma média mensal de depósitos de R$ 95,6 mil por unidade, aqueles sob domínio dos investigados registraram R$ 276,3 mil, um aumento médio de 187%.

Em termos de movimentação financeira, a investigação identificou:

  • R$ 594 milhões em depósitos em espécie sem origem comprovada.
  • R$ 148 milhões direcionados às contas da distribuidora.
  • R$ 203 milhões depositados em contas de postos e lojas de conveniência.
  • R$ 163 milhões canalizados para uma instituição de pagamentos do próprio grupo.
  • Estimativa de mais de R$ 20 bilhões circulando entre 2019 e 2025 em empresas sem declarações fiscais correspondentes.

A Justiça Federal já aceitou a denúncia contra 18 pessoas envolvidas no esquema. Muitos dos postos investigados foram vendidos para novos proprietários, que não são alvos da Polícia Federal, razão pela qual a lista específica não foi divulgada nesta reportagem. As irregularidades detectadas serão apuradas em procedimento administrativo pela ANP.