Em entrevista exclusiva à VEJA, o renomado especialista em máfias Antonio Nicaso, professor e autor de mais de trinta livros sobre o tema, compartilhou insights profundos sobre a evolução do crime organizado no Brasil e no mundo. Nascido na Calábria, berço da temível 'Ndrangheta, Nicaso vive atualmente no Canadá e é uma voz autorizada no estudo das organizações criminosas globais.
A conexão entre PCC e 'Ndrangheta
Nicaso destacou a parceria estratégica entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a 'Ndrangheta italiana no narcotráfico, com foco no porto de Santos como um ponto crucial para o envio de cocaína à Europa. Ele explicou que essa aliança foi facilitada pela diversificação de portos pela 'Ndrangheta, que identificou no Brasil uma rota eficiente para suas operações ilícitas.
Fragilidade do Estado e legitimação das máfias
O especialista comparou o PCC a um "irmão mais novo" da 'Ndrangheta, aprendendo com máfias italianas como a Camorra durante os anos 1990. Nicaso enfatizou que a força das máfias é diretamente proporcional à fragilidade política, citando exemplos no Brasil onde acordos de paz com grupos criminosos, como o Comando Vermelho, acabaram por legitimá-los e fortalecê-los.
Ele argumentou que, ao evitar a violência excessiva, organizações como a 'Ndrangheta se tornam mais difíceis de combater, pois se infiltram silenciosamente nas instituições e na economia legal.
Lavagem de dinheiro e economia legal
Nicaso alertou para o perigo da lavagem de dinheiro, destacando que as máfias hoje investem massivamente em negócios lícitos. Ele criticou a falta de eficácia global no combate a esse fenômeno, com apenas cerca de 2% da riqueza das máfias sendo confiscada mundialmente.
"O dinheiro do tráfico está se tornando um componente estrutural do capitalismo financeiro", afirmou, ressaltando a necessidade de investigar profissionais como advogados e comerciantes que facilitam essas operações.
Tecnologia e criptomoedas
O especialista citou exemplos concretos do uso de tecnologia pelo PCC, incluindo transações em bitcoin e operações de lavagem de dinheiro envolvendo criptomoedas. Ele mencionou casos como o de Anselmo Becheli Santa Fausta, conhecido como Cara Preta, onde a polícia brasileira descobriu transações em bitcoin ligadas ao PCC.
Nicaso também abordou o potencial uso de inteligência artificial por grupos criminosos, referindo-se a relatórios da Europol que alertam para redes criminosas autônomas criadas por IA.
Estratégias de combate
Para Nicaso, a chave para derrotar as máfias é "empobrecê-las" através de uma normativa global eficaz contra a lavagem de dinheiro. Ele defendeu a harmonização de leis entre países para evitar assimetrias que beneficiam o crime organizado.
Além disso, ele sugeriu investimentos em educação para aumentar a conscientização e a utilização de tecnologias como inteligência artificial e algoritmos pelas forças de segurança.
Contexto brasileiro e italiano
O especialista comparou a situação no Brasil e na Itália, notando que ambas as nações estão "empatadas" na guerra contra o crime organizado. Ele apoiou a proposta do presidente Lula de ampliar o poder da Polícia Federal, mas ressaltou a necessidade de leis adequadas e boas práticas para combater a corrupção e a lavagem de dinheiro.
Nicaso também discutiu a evolução de máfias italianas como a Cosa Nostra e a Camorra, que hoje operam de forma mais democrática e menos violenta, mas permanecem poderosas.
Em resumo, Antonio Nicaso ofereceu um panorama abrangente e alarmante da expansão global das máfias, com foco especial no Brasil, e defendeu uma abordagem multifacetada para combater esse fenômeno crescente.