Com pouco mais de quatro meses que nos separam das eleições e a algumas semanas das convenções partidárias para homologação de candidaturas, é interessante observar a divagação das pesquisas e das previsões dos cientistas políticos, em particular quando se trata de descobrir quem ocupará a Presidência da República a partir de janeiro. No entanto, não podem ser acusados de devaneios, porque, se o clima político sugere incertezas, as digressões fazem sentido. Se, por um lado, isso amplia discussões e dá aos cidadãos oportunidade de conhecer melhor quem está chegando para pedir o voto, por outro lado pode confundir, com o risco de um processo excessivamente conturbado nas etapas finais da campanha.
A dor no bolso e a corrupção
Na lista dos temas que as pesquisas e os analistas avaliam para inspirar a vasta população votante, há uma preocupação geral com o custo de vida. Entende-se que a dor no bolso do consumidor vai suplantando outras questões relevantes, como a insegurança pública, as deficiências na educação e nos serviços de saúde, e a corrupção. Sobre a corrupção, que cavalga a galope de norte a sul, surge um detalhe interessante na percepção dos que identificam nela amplo potencial para influir, embora não seja este um item que sensibilize prioritariamente as multidões. Isso tem permitido, por exemplo, que sejam eleitos, no Rio, governadores que frequentemente saltam do Palácio Guanabara para o presídio.
O fenômeno do 'menos pior'
De fato, se não bastasse estar o país sufocado por uma avassaladora e desavergonhada onda de desonestidades e ilicitudes, temos caminhado paralelamente para algo curioso, que vai ganhando corpo e carona nos primeiros passos da campanha. Observemos: já não se trata de reagir à corrupção como o grande câncer a combater e vencer, mas vão se revelando candidatos preocupados tão somente em se apresentar como menos corruptos que os adversários. Se não podem dizer que são honestos, porque efetivamente não o são, resta mostrar que têm a virtude de pecar menos contra a moral e a ética, suficiente para uma contrição. Querem se recomendar ao eleitor com a qualidade do menos pior num mundo de pecadores. O mérito da probidade com a coisa pública é condenado às calendas.
À primeira vista, dito assim, parece pilhéria ou exercício de ironia. Mas não deixa de ser uma dolorosa realidade, porque, se estamos sob o império da impunidade, a preocupação dos maus políticos é agora mostrar que concorrem com quem é pior.
O perigo de Daniel Vorcaro
Sobre fatos e pessoas capazes de influir no dia 4 de outubro, não convém desprezar um personagem que hoje enche as páginas e não sai da televisão: Daniel Bueno Vorcaro. Preso, mas cada vez mais perigoso, na mesma proporção em que se sente acuado, ele pode elaborar delações demolidoras de candidaturas, balançar tribunais, destruir ministros e ferir os altos interesses daqueles que já chamou de "bons amigos nos três poderes", que o contemplam apenas com olhar de paisagem, sem prestar socorro na hora ingrata. Sabemos todos que ele sabe muito. Na aflição de salvar a própria pele, Vorcaro, denunciando o que a Justiça ainda não sabe sobre o banco Master, pode se tornar um cabo eleitoral devastador. Sem dinheiro, não há mais como eleger amigos favoritos, nem financiar uísque milionário em Londres, mas tem tudo para sepultar candidaturas e altos esquemas que giram em torno do poder.



