O avanço da tecnologia e a corrida pela energia limpa colocaram o Brasil no centro de uma disputa geopolítica global, já que o país possui a segunda maior reserva das chamadas terras raras. Curiosamente, elas não são terras nem tão raras, como será explicado adiante. Após pautar o Congresso Nacional e ser tema estratégico na conversa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, Lula afirmou nesta segunda-feira (18) que espera que Trump deixe de "brigar" com o líder chinês Xi Jinping e passe a se associar ao Brasil em projetos ligados ao setor.
O que são terras raras?
As terras raras receberam esse nome no final do século XVIII e início do XIX, mas a terminologia é imprecisa: não são "terras" nem tão "raras" na crosta terrestre. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos da Tabela Periódica. Segundo o geólogo Alexandre Magno Rocha, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), "as terras raras são uma família com uma característica curiosa: todos parecem irmãos gêmeos. Vivem juntos nas rochas e se comportam de forma tão parecida que a própria natureza tem dificuldade de separá-los — e a indústria também".
Fazem parte deste grupo os 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio), que são "quimicamente pegajosos", e também o escândio e o ítrio, que costumam aparecer associados a eles. O nome "lantanídeo" vem do grego lanthanein, que significa "escondido", apropriado por ficarem escondidos uns dentro dos outros nas rochas.
Diferença para metais comuns
Enquanto ferro e cobre são usados em grandes volumes para construção e fiação, as terras raras operam como componentes de altíssima performance. Ysrael Marrero Vera, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/MCTI), afirma: "Podemos dizer que as terras raras são 'vitaminas da indústria tecnológica': usadas em pequenas quantidades, mas sem elas o desempenho de muitos sistemas cai drasticamente".
O magnetismo desses elementos impressiona. O neodímio, por exemplo, tem propriedade magnética que destoa de elementos mais baratos: uma fração muito pequena equivale a quilos de ferro, explica Emiliano Castro de Oliveira, docente da Unifesp. Sidney Lima Ribeiro, professor titular no Instituto de Química da Unesp, detalha que os elétrons ficam em uma camada tão profunda do átomo (orbitais 4f) que não sofrem interferência externa, mantendo o "spin" sempre na mesma direção, o que garante ímãs muito mais fortes e estáveis.
Outra diferença é a estabilidade: alguns elementos mantêm condução elétrica e magnetismo mesmo em altas temperaturas, essenciais para chips cada vez menores. Existem substitutos parciais, mas não equivalentes em desempenho, podendo tornar equipamentos mais pesados, menos eficientes ou consumir mais energia.
Aplicações no dia a dia
As terras raras estão em celulares, carros elétricos e turbinas eólicas. Superímãs de neodímio e praseodímio são os "músculos" da tecnologia, permitindo motores pequenos e potentes. Em celulares, garantem vibração e cores vibrantes (európio e térbio). Uma única turbina eólica de grande porte pode usar centenas de quilos de neodímio. Também são fundamentais em ressonância magnética, lasers cirúrgicos, drones e sistemas de satélites.
Processamento caro e complexo
O problema não é achar o minério, mas separar os elementos, que são quimicamente muito parecidos. As etapas incluem concentração física, ataque químico com ácidos caros, remoção de impurezas (incluindo tório e urânio radioativos), separação individual por extração com solventes em dezenas ou centenas de etapas, e precipitação final. O custo elevado deve-se ao consumo massivo de reagentes, infraestrutura especializada, gestão de resíduos e conhecimento técnico que a China levou mais de 50 anos para dominar.
Terras raras leves e pesadas
No mercado, o valor da jazida depende de quais terras raras contém. As leves (lantânio, cério, neodímio) são mais abundantes; as pesadas (disprósio, térbio, lutécio) são mais raras e decisivas para tecnologias de ponta. O óxido de lutécio pode custar entre US$ 5 mil e US$ 15 mil o quilo, devido principalmente aos milhares de estágios de separação.
Custo ambiental
A produção de terras raras impõe desafios ambientais severos: uso intensivo de substâncias tóxicas, geração de resíduos radioativos, alto consumo de água e energia, desmatamento e contaminação de águas superficiais e profundas.
Brasil privilegiado
O Brasil concentra a segunda maior reserva mundial devido a uma combinação geológica rara: origem vulcânica (magmas carbonatíticos), clima tropical e tempo. O intemperismo tropical concentra as terras raras no solo. Um exemplo é a Província Ígnea do Alto Paranaíba, em Minas Gerais e Goiás, considerada a maior faixa contínua de jazidas de terras raras pesadas fora da China. Além disso, o Brasil descobriu argilas iônicas, onde as terras raras ficam "grudadas" na superfície, facilitando a extração, mas com maior impacto ambiental.
Por que o Brasil não aproveita o potencial?
Apesar da abundância, o Brasil ainda não domina a etapa industrial. A China lidera 90% do processamento mundial. O país corre o risco de repetir o modelo do minério de ferro e da soja: exportar matéria-prima bruta e importar produtos industrializados. O conhecimento existe nas universidades, mas faltam investimentos em refinarias. Historicamente, o Brasil já dominou técnicas de separação, mas o conhecimento ficou restrito a laboratórios.
Guerra fria das terras raras
A China controla não apenas reservas, mas também as refinarias. O mundo ocidental, incluindo os EUA, depende das fábricas chinesas. Com a guerra comercial e restrições chinesas, os EUA buscam parceiros alternativos, e o Brasil é candidato. Não há escassez física, mas sim "escassez política" — acesso pode ser restrito por motivos diplomáticos.
Brasil na disputa
Com a segunda maior reserva, o Brasil está no centro da disputa entre EUA e China. Na reunião entre Lula e Trump, o tema foi central. Os EUA querem acesso rápido e menos burocracia ambiental; o Brasil defende soberania, não aceitando exclusividade e buscando agregar valor internamente. A Câmara dos Deputados aprovou a Política Nacional para Exploração de Minerais Críticos, com fundo de até R$ 5 bilhões para incentivar empresas que tragam tecnologia de transformação ao Brasil, condicionando parcerias à transferência de tecnologia.



