Tarcísio reafirma lealdade a Bolsonaro e candidatura em SP, mas gesto expõe crise na direita
Tarcísio reafirma lealdade a Bolsonaro e reeleição em SP

Gesto de Tarcísio reafirma lealdade a Bolsonaro, mas expõe crise profunda na direita

Em um movimento que surpreendeu aliados e analistas políticos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, publicou um tuíte na noite de quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, reafirmando sua pré-candidatura à reeleição no estado e declarando gratidão e lealdade ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O gesto, contudo, longe de dissipar dúvidas, escancarou a forte dependência política do governador frente ao clã Bolsonaro e os limitados espaços de manobra que ele possui dentro do espectro da direita brasileira.

Recuo estratégico ou sinal de fragilidade?

A mensagem de Tarcísio veio após dias de tensão aberta com o senador Flávio Bolsonaro, que rapidamente comemorou a declaração nas redes sociais. Inicialmente, o governador havia pedido autorização para uma visita a Jair Bolsonaro, mas recuou ao perceber que seria pressionado a declarar apoio explícito à candidatura presidencial de Flávio e a se comprometer definitivamente com a reeleição em São Paulo como parte de um acordo político.

Segundo a colunista Marcela Rahal, o tuíte funcionou como um gesto de acomodação, reafirmando a candidatura ao governo estadual e prometendo lealdade ao ex-presidente, mas evitando mencionar Flávio nominalmente. "É um posicionamento dúbio", afirmou Marcela, que vê risco inclusive para a imagem do governador junto ao eleitorado paulista. "Passa a sensação de 'se aceitarem, eu posso ser; se não, não posso'."

Dependência política e pressões do bolsonarismo

Para o colunista Robson Bonin, o episódio chama atenção pelo "grau de servilismo" demonstrado por Tarcísio diante da família Bolsonaro. Apesar de ser hoje o político mais poderoso do entorno bolsonarista, o governador se mostrou incapaz de impor sua própria agenda. "Ele não tem peso nenhum diante dos interesses da família", avaliou Bonin.

Nos últimos dias, aliados de Flávio transformaram Tarcísio em alvo direto, acusando-o de traição por não apoiar de forma explícita a candidatura presidencial do senador. A ofensiva incluiu:

  • Ataques nas bases eleitorais de direita
  • Ameaças veladas de lideranças do PL
  • Sinalização de que poderiam lançar candidato próprio ao governo paulista caso Tarcísio não "se enquadrasse"

O jogo de poder da família Bolsonaro

Desde que anunciou Flávio como pré-candidato à Presidência, Jair Bolsonaro deixou claro que não abre mão do controle do projeto político do grupo. O problema, como observa Bonin, é que até agora não há proposta concreta de país. "A campanha que se anuncia é a mesma de 2018: derrotar o PT e ver depois o que fazer", afirmou.

Nesse contexto, o governador paulista virou peça a ser disciplinada. A mensagem foi direta: ou aceita o papel de coadjuvante e palanque em São Paulo, ou corre o risco de ser descartado politicamente. "Os aliados passaram a semana dizendo que ele iria para a iniciativa privada, que não teria futuro político", relatou o colunista.

Consequências para a direita e cenário eleitoral

Enquanto a direita se digladia em disputas internas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue praticamente sem adversário forte. Para os comentaristas, o Planalto assiste à cena com conforto: a oposição está consumida por disputas familiares de poder, não por um debate programático substantivo.

O prazo para Tarcísio tomar uma decisão definitiva se aproxima — até abril de 2026, ele precisa escolher se fica em São Paulo ou se arrisca em um projeto nacional. Até lá, a estratégia de manter "um pé em cada canoa" pode custar caro: sem discurso próprio e refém das pressões do bolsonarismo, o governador corre o risco de chegar atrasado tanto à reeleição quanto a qualquer projeto presidencial futuro.

O gesto de Tarcísio, portanto, revela não apenas as tensões internas na direita brasileira, mas também a profunda crise de identidade e projeto político que aflige esse espectro ideológico. A dependência do governador paulista em relação às bênçãos do clã Bolsonaro limita sua autonomia e expõe as fraturas que podem definir os rumos das próximas eleições no país.