Tarcísio e Flávio se movimentam para aparar arestas em meio a planos eleitorais estratégicos
A relação política entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Flávio Bolsonaro, representante do clã Bolsonaro, permanece em um delicado equilíbrio, marcado por juras públicas de apoio, mas também por significativas desconfianças nos bastidores. Com eleições cruciais se aproximando em 2026, ambos reconhecem a necessidade urgente de um alinhamento concreto, que será testado em uma reunião marcada para os próximos dias. As discussões abrangem desde a composição de chapas em São Paulo até a campanha presidencial nacional e até mesmo acordos prévios para a eleição de 2030.
Desalinhamentos que ameaçam a aliança
Desde que Flávio Bolsonaro foi escolhido por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para liderar a campanha presidencial em dezembro, a relação com Tarcísio tem sido mais baseada em gestos simbólicos do que em ações efetivas. Embora ambos tenham trocado elogios públicos – Flávio chamou Tarcísio de "cara fora de série" e "principal nome do nosso time", enquanto o governador prometeu firme apoio –, nos bastidores persiste a desconfiança. Alguns aliados ainda não descartam completamente a possibilidade de Tarcísio concorrer ao Planalto em 2026, uma hipótese considerada improvável, mas suficiente para alimentar tensões.
Nas redes sociais e em eventos públicos, os dois evitam mencionar um ao outro, citando-se apenas quando questionados por jornalistas sobre o comprometimento mútuo na disputa eleitoral. A primeira reunião desde a definição de seus papéis na eleição está agendada e é classificada por ambos como necessária para promover "alinhamentos". No entanto, os pontos de desacordo são numerosos e complexos.
Questões centrais na mesa de negociações
Um dos temas mais básicos é a participação de cada um na campanha do outro. Flávio Bolsonaro precisa apresentar com mais clareza seus projetos para o país, e é provável que abra espaço para que Tarcísio, ex-ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro, faça sugestões nas áreas de economia e infraestrutura. O governador, por sua vez, se oferece para abrir contatos com o mercado financeiro, empresários e o agronegócio, visando ganhar um papel de articulação relevante na campanha nacional e manter-se como alternativa presidencial para o futuro.
Outro ponto crucial é um acerto prévio sobre a eleição de 2030. Tarcísio vai sugerir que Flávio se comprometa em seu plano de governo com a defesa do fim da reeleição, medida vital para que o governador possa retomar seu projeto presidencial daqui a quatro anos. Recentemente, Flávio tem sinalizado apoio a essa proposta, dizendo: "Assino qualquer proposta para que o mandato de presidente da República seja apenas uma vez, não caiba reeleição".
Desafios na esfera estadual
Além das questões nacionais, há vários desalinhamentos no âmbito de São Paulo. Um deles é a disputa pela vaga de vice de Tarcísio na chapa à reeleição. O PL, partido de Flávio, quer emplacar André do Prado, atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, no posto, que atualmente é ocupado por Felicio Ramuth do PSD, aliado de Gilberto Kassab. Essa movimentação incomoda Tarcísio, pois colocaria o PL no posto de vice e poderia desagradar Kassab, que só aceita tirar Ramuth se for para assumir o lugar ele mesmo.
Outra pendência é a chapa ao Senado no estado. Uma das vagas será do ex-secretário da Segurança Pública de Tarcísio, Guilherme Derrite do PP. A outra vaga, que era de Eduardo Bolsonaro – que se autoexilou nos Estados Unidos –, é alvo de intensa disputa no PL. Enquanto Eduardo prefere o deputado Mario Frias, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tenta emplacar a deputada Rosana Valle, enfrentando resistência dentro do próprio clã.
Contexto histórico e expectativas eleitorais
A relação entre Tarcísio e a família Bolsonaro nunca foi fácil, marcada por desconfianças mútuas. O clã sente que tem pouco espaço na gestão de São Paulo e espera mais engajamento do governador na campanha para libertar Jair Bolsonaro da prisão. Tarcísio, por outro lado, tem buscado equilibrar moderação pragmática com a defesa de seu padrinho político, às vezes exagerando no tom, como ao chamar o ministro Alexandre de Moraes do STF de "tirano".
Segundo a última sondagem do instituto Paraná Pesquisas em São Paulo, Tarcísio lidera as pesquisas para o governo do estado e pode vencer no primeiro turno contra adversários como Fernando Haddad do PT e Geraldo Alckmin do PSB. Já Flávio aparece à frente de Lula no primeiro e segundo turnos nas projeções nacionais. Em uma eleição presidencial apertada, uma vitória contundente no maior colégio eleitoral do país, que representa 22% do eleitorado nacional, pode ser decisiva. Portanto, ambos dependem um do outro para fortalecer suas campanhas, tornando essencial que apararem as arestas rapidamente.



