Um vídeo de tom eleitoral publicado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para celebrar a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos foi recebido com entusiasmo pela militância bolsonarista e interpretado por aliados como um claro recado presidenciável para 2026.
Discurso estratégico e alinhamento bolsonarista
Apesar de estar de férias e afastado do governo paulista até o dia 11 de janeiro, Tarcísio escreveu pessoalmente e gravou o conteúdo para suas redes sociais. No material, ele detalha os problemas da ditadura venezuelana e acusa diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de apoiar o regime de Maduro. Curiosamente, o governador evitou mencionar o presidente americano Donald Trump, autor da operação militar.
"A Venezuela agora está vencendo a esquerda e que, no final do ano, o Brasil também vença", declarou Tarcísio ao final do vídeo, fazendo uma clara referência às eleições presidenciais de outubro. A primeira-dama de São Paulo, Cristiane Freitas, reforçou a mensagem nos comentários: "Uma grande vitória para o povo venezuelano. Que, ao fim das eleições de 2026, nós, brasileiros, também possamos comemorar!".
A postura de Tarcísio contrastou com a de outros governadores de direita também vistos como presidenciáveis, como Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Jr (PR) e Romeu Zema (MG), que celebraram a queda de Maduro sem fazer uma ligação explícita com o futuro político do Brasil. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se lançou como candidato do bolsonarismo com aval do pai, também usou o episódio para criticar Lula, mas sem a menção direta à eleição brasileira.
Reações e desgaste com Trump
A manifestação de Tarcísio não passou despercebida pelo Planalto. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), respondeu às críticas lembrando o desgaste anterior do governador com Trump. "Tarcísio Freitas, que vestiu boné do Trump, comemorou o tarifaço que ele impôs contra o Brasil... agora tem o desplante de responsabilizar Lula pela invasão dos EUA à Venezuela. É muito cinismo para um bolsonarista só", publicou Gleisi no domingo (4).
O ponto levantado pela ministra refere-se a uma mudança perceptível na postura de Tarcísio. Durante a crise das tarifas impostas por Trump ao Brasil, o governador inicialmente culpou Lula e isentou Jair Bolsonaro, antes de admitir o impacto negativo para São Paulo e suavizar seu discurso. Desta vez, ele evitou qualquer endosso ao presidente americano.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tarcísio justificou a ação militar americana como fruto da omissão do Brasil, que, segundo ele, deixou de liderar uma transição democrática na Venezuela devido ao alinhamento do PT com Maduro. "O Brasil nunca fez isso, nunca cumpriu esse papel. A gente pode criticar os meios que foram usados agora, a legitimidade ou não. Mas o fato é que algo precisava ser feito e foi feito", argumentou.
Sinalizações para 2026 e união da direita
Aliados do governador afirmam que a mensagem de "vencer a esquerda" já está incorporada ao seu discurso. Um exemplo recente foi um vídeo publicado no dia 1º de janeiro, no qual Tarcísio, vestindo a camisa da seleção brasileira, resolve uma equação em uma lousa que termina com os dizeres "Feliz 2026" e "Fora PT". Na legenda, ele escreveu: "A fórmula é simples! Feliz 2026 = Fora PT".
Assessores próximos ao governador avaliaram que o vídeo sobre a Venezuela foi bem-sucedido em termos de engajamento, estratégico e mais ponderado se comparado a declarações de outros bolsonaristas, que chegaram a vislumbrar uma deposição de Lula nos moldes da de Maduro. Eles reforçam que, embora Tarcísio planeje concorrer à reeleição em São Paulo, ele trabalhará pela união da direita independentemente de quem seja o candidato do campo ao Planalto em 2026.
A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, ocorrida no sábado (3), é considerada a maior contra a América Latina em décadas. As forças de Trump bombardearam Caracas e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O ditador já se encontra nos EUA, onde será julgado por acusações de narcoterrorismo e crimes relacionados ao tráfico de drogas. O presidente Lula classificou os bombardeios como algo que "ultrapassam uma linha inaceitável".