Prefeitos armam guardas municipais como estratégia eleitoral para conquistar votos
Prefeitos armam guardas municipais para eleições

Prefeitos apostam em guardas armadas para conquistar eleitores preocupados com segurança

Ao longo das últimas décadas, com a criminalidade em constante crescimento, os municípios foram gradualmente adentrando uma área tradicionalmente competência dos estados: a segurança pública. Inicialmente concebidas para proteger escolas e repartições públicas, as guardas municipais se armaram progressivamente e ampliaram significativamente seu raio de ação. Em muitos casos, especialmente nos grandes centros urbanos onde a presença do crime se torna mais ostensiva, essas guardas se transformaram em verdadeiras forças policiais sob o comando direto dos prefeitos.

Estratégia eleitoral sem comprovação de eficácia

Embora analistas e especialistas alertem para a falta de estudos que comprovem a real eficácia dessas medidas e façam ponderações técnicas importantes, a política de armar guardas municipais vem se revelando extremamente promissora em um aspecto crucial: as urnas. Nas eleições que se aproximam, essa tem sido a aposta central de políticos que aspiram a voos mais altos em suas carreiras.

Eles agitam vigorosamente a bandeira do combate ao crime enquanto ampliam suas tropas municipais, investem pesadamente em armamento e endurecem o discurso de segurança. O objetivo é falar diretamente à parcela do eleitorado que coloca o tema da segurança pública no topo de suas preocupações – realidade que atinge 41% dos brasileiros, conforme recente levantamento do instituto Ipsos.

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Capitais reforçam efetivos às vésperas das eleições

Atualmente, quase todas as capitais brasileiras contam com guardas municipais armadas. Nos últimos anos, os efetivos dessas corporações se multiplicaram expressivamente, assim como os investimentos em armamentos sofisticados e viaturas modernas. Duas importantes metrópoles com amplo eleitorado engrossaram suas tropas às vésperas do pleito eleitoral.

No Rio de Janeiro, administrado por Eduardo Paes do PSD, e em Recife, que tem João Campos do PSB como prefeito – ambos aspirantes à cadeira de governador em seus respectivos estados –, as guardas municipais estão sendo especialmente fortalecidas. Em março, pouco antes do prazo-limite para desincompatibilização dos cargos, os dois prefeitos vão entregar pistolas para seus agentes, que passarão então a patrulhar as ruas das cidades.

Estratégia de mesma essência está sendo trilhada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas do Republicanos, candidato à reeleição. Ele já distribuiu aproximadamente 2.200 armas, incluindo fuzis e carabinas repassadas do arsenal estadual recentemente renovado, para guardas municipais em todo o território paulista.

O apelo político do combate à criminalidade

O apelo dessas iniciativas é imenso para uma população que vive amedrontada pela violência urbana. "A maioria dos crimes contra o patrimônio sequer são registrados oficialmente, e as prisões nas maiores cidades do Brasil não atingem 5% dos ladrões. O clima geral é de constante intimidação", afirma José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

A ideia central dos prefeitos é justamente agir para coibir a violência cotidiana, como roubos e furtos de celulares, que não fazem distinção de classe social e ganharam contornos de verdadeira epidemia nas grandes cidades brasileiras.

Detalhes das operações municipais

No Rio de Janeiro, 600 homens foram selecionados internamente, entre os 7.500 integrantes da guarda já existente, para compor a chamada Força Municipal. Eles passaram por treinamento teórico e operacional com a Polícia Rodoviária Federal e vão atuar equipados com câmeras corporais e pistolas Glock – modelo austríaco mundialmente utilizado – nos locais estatisticamente mais vulneráveis ao crime.

Esta tropa especial, no entanto, ficará restrita ao asfalto, mantendo-se distante das complexas operações de enfrentamento às facções criminosas que atuam nas favelas cariocas. A convivência diária do carioca com todo tipo de desmando dos marginais tem tudo para ser, mais uma vez, o mote central da disputa pelo Palácio Guanabara – e Paes, atual favorito nas pesquisas eleitorais, quer ter conquistas concretas para mostrar aos eleitores.

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Nos últimos dias, o prefeito do Rio vem reservando parte considerável de sua agenda para a entrega simbólica de viaturas e armas, além de exibir uma central de monitoramento em tempo real batizada de Civitas. "Se a polícia tradicional resolvesse completamente a situação de segurança, a gente não estaria fazendo todo esse esforço adicional", declara o chefe da nova força, o delegado Brenno Carnevale, em tom claramente eleitoral.

Esquerda busca remover obstáculo eleitoral

A ofensiva na área da segurança pública tornou-se ainda mais estratégica para políticos de esquerda, frequentemente criticados por não apresentarem propostas concretas nessa área e por encararem o problema com certa leniência percebida. Disposto a remover este obstáculo em seu caminho rumo ao Palácio do Campo das Princesas – atualmente ocupado por Raquel Lyra do PSD, governadora em primeiro mandato que também estará na disputa –, João Campos, jovem expoente do campo progressista, igualmente decidiu arregaçar as mangas.

Em Recife, a distribuição de armas será gradual, iniciando no primeiro semestre com 250 agentes selecionados entre os mais de 1.600 que integram a força municipal. O patrulhamento deve começar por pontos estratégicos da cidade, como o efervescente Recife Antigo, área historicamente frequentada por turistas. "Nossa intenção principal é promover a sensação de segurança na população; não iremos fazer enfrentamento direto com criminosos, nem conduzir investigações policiais", afirma Alexandre Rebêlo, secretário municipal de Ordem Pública e Segurança do Recife.

Cidades médias seguem o exemplo

Assoladas pela ação violenta das milícias e do tráfico de drogas, cidades médias do estado do Rio de Janeiro também buscam se armar e dão ampla visibilidade a suas iniciativas de segurança. Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, o prefeito Márcio Canella do União Brasil planeja implantar uma Força Tática municipal, já apelidada de "mini-Bope", especificamente para o enfrentamento ao crime organizado. O projeto se tornou a principal plataforma para sua candidatura ao Senado Federal, que ele tenta pavimentar estrategicamente.

Já em Maricá, governada pelo vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, a prefeitura se prepara para criar um Grupamento de Ocupação Democrática Armada do Território. Este será equipado com fuzis e carros blindados do tipo "caveirão" para atuar em comunidades conflagradas pela violência. Abastecida por vultosos royalties do pré-sal, a ideia central é que o município funcione como uma espécie de vitrine petista na área da segurança pública.

Alertas e ponderações dos especialistas

Especialistas em segurança pública alertam consistentemente que, não raramente, medidas menos vistosas politicamente – por vezes até bem mais simples e baratas – colhem resultados significativamente mais expressivos no combate à criminalidade. "Investir sistematicamente em iluminação urbana de qualidade, em tecnologia avançada para monitoramento das cidades e em treinamento especializado são frentes que costumam funcionar efetivamente na segurança pública", observa a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Outro ponto central levantado pelos especialistas em relação às novas guardas municipais armadas é que elas não configurem uma força completamente destacada do restante do aparato de segurança. "Sem um plano de segurança verdadeiramente integrado com as polícias militar e civil, dificilmente se alcançará o efeito pretendido de redução sustentável da criminalidade", pondera José Vicente da Silva Filho.

Resta agora à população aguardar se essas iniciativas municipais de desatar o complexo nó da criminalidade urbana se provarão sólidas o suficiente e capazes de suplantar o imediatismo eleitoral de outubro.