Disputa pelo Palácio Guanabara ganha contornos estratégicos com táticas históricas
A corrida eleitoral para o governo do estado do Rio de Janeiro começa a definir seus principais contendores, com movimentos que remetem a estratégias políticas do passado. Na última terça-feira (24), o Partido Liberal (PL) confirmou oficialmente o deputado federal Douglas Ruas como seu pré-candidato ao executivo estadual, tendo Rogério Lisboa do PP como candidato a vice na chapa. Paralelamente, o prefeito da capital Eduardo Paes (PSD) já havia anunciado sua pré-candidatura, confirmando que deixará a prefeitura em 20 de março para se dedicar à campanha estadual.
Estratégia do PL inspirada em Garotinho
Fontes próximas ao partido revelam que a chapa metropolitana do PL está testando uma tática reminiscente das campanhas de Anthony Garotinho, ex-governador do Rio conhecido por sua forte atuação na região metropolitana e interior. A estratégia busca consolidar bases eleitorais fora da capital, justamente onde Paes tem intensificado suas agendas recentemente. Douglas Ruas, anunciado pelo senador Flávio Bolsonaro como candidato do PL, traz consigo a experiência como secretário de Estado das Cidades, cargo que ocupa desde setembro de 2023.
Com 37 anos, policial civil e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, Ruas foi eleito deputado estadual em 2022 como o segundo mais votado do estado, com impressionantes 175 mil votos. Seu patrimônio declarado à justiça eleitoral em 2022 era de R$ 1,2 milhão. Embora tenha apresentado apenas oito projetos de lei na Alerj – nenhum relacionado a polêmicas – sua baixa participação legislativa se explica pelo cargo executivo que ocupa, onde gerencia investimentos de R$ 2,1 bilhões em projetos em 20 municípios através da Secretaria das Cidades.
Paes constrói alianças amplas e diversificadas
Do outro lado, Eduardo Paes monta uma estratégia baseada em alianças que vão do PT – com apoio consolidado do presidente Lula – a antigos aliados de Bolsonaro, como Washington Reis, presidente do MDB no RJ e ex-prefeito de Duque de Caxias. Em movimento significativo, Paes anunciou em 19 de fevereiro aliança com o MDB estadual e a indicação de Jane Reis, irmã de Washington, como vice em sua chapa.
Jane Reis é advogada, evangélica, casada com um pastor, e foi candidata pelo MDB à prefeitura de Magé em 2020, onde obteve 5,92% dos votos. Analistas políticos interpretam esta escolha como um movimento calculado de Paes para consolidar influência na Baixada Fluminense, região historicamente considerada o "fiel da balança" nas eleições fluminenses.
Desde que confirmou sua pré-candidatura, Paes tem ampliado seu discurso para temas estaduais como segurança pública, mobilidade intermunicipal e desenvolvimento regional, intensificando agendas no interior e região metropolitana. Seu vice na prefeitura, Eduardo Cavaliere, assumirá o comando municipal durante a campanha.
Cenário eleitoral ainda em formação
A disputa pelo governo do Rio está longe de definida, com vários partidos ainda avaliando lançar candidaturas próprias:
- O Missão, novo partido originado no Movimento Brasil Livre (MBL), pode lançar candidato, com o bombeiro Rafael Luz – que ganha força como influenciador digital – sendo cotado.
- O Novo avalia o psiquiatra e influenciador Ítalo Marsili, comparado pelo perfil coach e outsider ao empresário Pablo Marçal.
- O PSOL deve ter candidatura própria, com William Siri, vereador em segundo mandato, sendo o nome mais provável, embora Glauber Braga, Monica Benicio e Thais Ferreira também sejam mencionados.
- O PT mantém apoio a Paes costurado por Lula, mas a possibilidade do deputado André Ceciliano concorrer ao mandato-tampão de governador pode alterar os rumos.
- Renato Cozzolino, prefeito de Magé, é cotado pelo Democracia Cristã, mas há negociações para o partido entrar na aliança com o PSD.
- Wilson Witzel, governador que sofreu impeachment, afirma ter apoio do pré-candidato a presidente Aldo Rebelo, mas enfrenta a inelegibilidade e negação do partido no RJ.
As duas chapas principais – de Douglas Ruas (PL) e Eduardo Paes (PSD) – brigam intensamente por apoios de partidos que ainda não se definiram, em um cenário que promete aquecer ainda mais nos próximos meses. A tática do PL inspirada em Garotinho contra a estratégia de amplas alianças de Paes define os primeiros contornos de uma disputa que deve ser marcada por polarizações regionais e ideológicas.



