Mudança para o Paraguai: Salário maior, mas custos escondidos exigem planejamento
Mudança para o Paraguai: salário maior, mas custos escondidos

O Paraguai tornou-se um dos destinos preferenciais para brasileiros em busca de menor custo de vida, menos impostos e uma rotina considerada mais segura. No entanto, a mudança exige cuidados que vão além da simples comparação entre salário mínimo e aluguel. O país recebeu 18.071 pedidos de residência de estrangeiros de janeiro a março de 2026, um aumento de 85% em relação ao mesmo período de 2025. Os brasileiros lideraram a lista de residências concedidas, com 9.195 autorizações. Nas redes sociais, o Paraguai passou a ser chamado por alguns de "Nova Suíça" da América do Sul.

Salário mínimo e poder de compra

O salário mínimo no Paraguai é de 2.899.048 guaranis, o equivalente a cerca de R$ 2.351 pela cotação atual. No Brasil, o salário mínimo é de R$ 1.621 desde janeiro deste ano. Em valores convertidos, o salário mínimo paraguaio supera o brasileiro, mas a comparação tem limites e não significa, sozinha, mais poder de compra. A conta depende da cidade escolhida, do tipo de moradia, da composição familiar e, principalmente, da origem da renda. A diferença nominal favorece o país vizinho, mas os gastos com moradia, mercado, saúde, idioma e adaptação pesam na decisão. O destino se mostra vantajoso para quem tem renda remota, aposentadoria ou negócio planejado, mas mais arriscado para quem viaja sem reserva financeira e espera conseguir emprego local.

Moradia: atrativo e alerta

A moradia desponta como um dos pontos que mais atraem os imigrantes, embora o aluguel consuma a renda local. Gissely Barcelos, 22, e Josias Weber, 26, deixaram Porto Alegre logo após o casamento e foram viver em Luque, cidade vizinha a Assunção. O casal diz pagar 2,5 milhões de guaranis, cerca de R$ 2.027, por um apartamento parcialmente mobiliado, com sacada, cozinha equipada e ar-condicionado. Um imóvel semelhante na capital gaúcha custaria mais que o dobro, segundo a avaliação do casal. A comparação também mostra um alerta, já que o aluguel pago pelo casal equivale a cerca de 86% do salário mínimo paraguaio. Ou seja, o valor parece atrativo para quem recebe em reais ou dólares, mas pesa para quem depende de dinheiro local. "Para um casal que queria construir a vida, não tinha como a gente continuar onde a gente estava", disse Gissely Barcelos.

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Mercado, saúde e outras despesas

No supermercado, a vida no Paraguai se mostra mais barata em alguns produtos básicos e mais cara em itens específicos. A diferença aparece principalmente quando os brasileiros tentam manter os mesmos hábitos alimentares do país de origem. Gissely e Josias citam o feijão como exemplo, já que o alimento tem menor consumo no Paraguai e é mais difícil de encontrar. "A gente só vê brasileiros comendo feijão", afirma Josias.

A saúde exige atenção na comparação, pois o custo menor não garante o acesso a um sistema público universal. No Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde) garante atendimento. No Paraguai, embora exista rede pública, o sistema funciona com outra lógica. O Instituto Social do Mercosul aponta que apenas alguns serviços públicos de atenção básica são gratuitos, enquanto o restante exige pagamento do paciente. As despesas pagas diretamente pelas famílias representam 38,4% dos gastos totais em saúde no Paraguai, índice acima da média da América Latina e Caribe, segundo a rede P4H. Na prática, isso significa que consulta, exame, remédio, emergência ou plano privado precisam entrar no cálculo de quem pensa em se mudar. Uma emergência médica altera completamente a percepção de economia.

As contas de água, luz e gás doméstico costumam aliviar o orçamento no fim do mês. Gissely e Josias relataram uma conta de água de cerca de R$ 11 no primeiro mês em Luque. Jackelinne Galhardo, por outro lado, comparou a mudança com os custos que tinha no Brasil, onde afirma que pagava cerca de R$ 1.000 de luz e mais de R$ 500 de água na esmalteria que mantinha em Campo Grande. O gás de cozinha também pesa menos em algumas comparações. A Petropar (Petróleos Paraguayos) informa preço de 7.374 guaranis por quilo para o gás. Em conversão aproximada, um botijão de 13 kg fica perto de R$ 78. No Brasil, o preço médio nacional do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) atingiu R$ 114,77 na semana de 10 a 16 de maio, segundo dados da Petrobras.

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O combustível aparece como outro item favorável ao custo de vida para quem cruza a fronteira. A estatal Petropar informa valores equivalentes a cerca de R$ 5,42 e R$ 5,83 por litro para diferentes tipos de gasolina. No Brasil, o preço médio nacional da gasolina bateu R$ 6,66 no período de 10 a 16 de maio.

Internet e impostos

A internet deixa de ser conforto e vira ferramenta essencial para os imigrantes que chegam com renda remota. As operadoras locais oferecem planos que parecem competitivos quando convertidos para reais. Os combos de Wi-Fi e plano móvel partem de cerca de R$ 207, enquanto os planos de fibra começam em R$ 77. Para quem depende da conexão para o serviço, estabilidade, cobertura no bairro e suporte técnico pesam tanto quanto a fatura mensal.

A carga tributária reduzida se consolida como um dos principais atrativos citados por quem defende a mudança. O país informa alíquotas de 10% para IVA (Imposto sobre o Valor Agregado), imposto de renda empresarial e imposto de renda pessoal. O regime de maquila, voltado a empresas exportadoras, também atrai investidores com um imposto único de 1% sobre o valor agregado nacional ou sobre a nota fiscal de exportação.

Contexto da migração

O interesse de brasileiros pelo Paraguai faz parte de um processo antigo que ganhou nova força nas redes sociais. Para o sociólogo José Lindomar Coelho Albuquerque, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a migração teve diferentes fases. Hoje, o movimento reúne estudantes de medicina, empresários atraídos pelas maquilas e pessoas influenciadas por discursos de menor tributação, liberdade econômica e menor intervenção do Estado. Os vídeos de moradores que vivem no país vizinho criam um efeito de chamada que romantiza o destino. O pesquisador afirma que os conteúdos tendem a mostrar mais vantagens do que problemas, e criam falsas expectativas. "Essa noção de Nova Suíça eu acho absolutamente inadequada. Eu evitaria, de fato, o termo onda. O que existe é um processo contínuo dos últimos tempos", diz Albuquerque.

A transferência de país tem sucesso maior entre pessoas que possuem renda própria, aposentadoria ou trabalho remoto. Já o cidadão que vende tudo no Brasil, não tem rede local e tenta começar do zero corre mais risco financeiro e social na adaptação. "Esses que vendem tudo sem nenhuma rede local são os mais arriscados", alerta o sociólogo sobre o perfil dos imigrantes.

Repercussão e adaptação

A rotina com a alimentação local gera choques para quem busca manter a dieta brasileira. Jackelinne Galhardo, 32, saiu de Campo Grande e hoje vive em Encarnación, e aponta o supermercado como a principal dificuldade no novo país. "O maior perrengue é o supermercado. É complicado achar fruta, cafezinho e essas coisas", disse Jackelinne.

Os profissionais que trabalham com tecnologia enxergam um ambiente de oportunidades de crescimento no mercado paraguaio. Para brasileiros como Gissely e Josias, o país oferece espaço para crescer em um mercado menos saturado do que o brasileiro. Eles trabalham com comunicação, marketing e tecnologia e avaliam positivamente o cenário de negócios.

A falta de planejamento financeiro afasta as pessoas que buscam empregos tradicionais na região. O psicanalista Cristiano Lopes, 43, passou dois meses em Ciudad del Este e voltou ao Brasil. Ele conta que gostou da experiência, mas concluiu que o Paraguai não atenderia seu objetivo financeiro de longo prazo. "O Paraguai não é um país para você arrumar trabalho", afirma.

A principal recomendação para os interessados na fronteira é testar a vida no local antes de fechar as portas no Brasil. Cristiano se preparou financeiramente para ficar seis meses no Paraguai sem emprego fixo, mas decidiu retornar após avaliar o cenário. Ele resume o conselho que costuma dar aos mais novos: "Vá primeiro como turista, fique 30 dias e entenda se aquilo realmente é para você."