Em uma terça-feira comum de jogatina no Hotel-Cassino Quitandinha, em Petrópolis, o telefone tocou e os dados rolaram pela última vez. O empresário Joaquim Rolla, lendário "rei da roleta", ordenou a interrupção das partidas: o presidente Eurico Gaspar Dutra havia decretado o fim dos cassinos em 30 de abril de 1946. Oitenta anos depois, o governo Lula ensaia uma guerra aberta contra as bets, os cassinos modernos, movido por apelo eleitoral conservador.
Guinada eleitoral
O tom eleitoral da medida é evidente. O PT apresentou à Câmara um projeto de lei para banir completamente as bets, atribuindo ao setor o endividamento severo da população. A proposta determina o fechamento das casas de apostas em 30 dias, com multas de 50 mil reais a bilhões, e cria quatro crimes com penas de até oito anos de prisão. O próprio Lula declarou: "Nós brigamos a vida inteira contra cassino, eu, como cristão. Agora o cassino está dentro da sua casa".
Regulação e arrecadação
Paradoxalmente, foi no terceiro mandato de Lula que as bets foram regulamentadas, em janeiro de 2025. O governo criou a Secretaria de Prêmios e Apostas, arrecadando 9,95 bilhões de reais em 2025 com outorgas e impostos. A licença para operar custa 30 milhões de reais. "O tributo é importante, mas não pode ser a partir da desgraça das pessoas", justifica o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai.
Endividamento e críticas
O volume de apostas rendeu 33 bilhões de reais às bets em 2025, coincidindo com o endividamento de 80,4% das famílias em março de 2026. Estudo da FIA Business School aponta que a jogatina pesa duas vezes mais que juros altos no endividamento. Críticos, como o senador Flávio Bolsonaro, afirmam: "Lula regulamentou pensando na arrecadação, gerando problemas morais e sociais".
Risco de mercado clandestino
Especialistas alertam que a proibição fortalecerá o crime organizado. O presidente do IBJR, André Gelfi, afirma: "Não existe cenário sem jogo, existe jogo regulado e clandestino". Operações da PF, como Narco Bet e Narco Fluxo, já revelaram esquemas de lavagem de dinheiro em bets ilegais. Historicamente, a proibição é ineficaz: mesmo após 80 anos de banimento, o jogo de azar persiste no Brasil.
A decisão do governo petista, em vez de investir em fiscalização e saúde pública, é vista como uma aposta demagógica para alavancar a popularidade em ano eleitoral. Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992.



