Articulador político enfrenta obstáculos em ano eleitoral crucial
Gilberto Kassab, conhecido como um dos maiores articuladores da política brasileira, enfrenta atualmente desafios significativos que colocam em xeque suas ambições para as eleições de 2026. O líder do PSD, partido que ele próprio fundou em 2011, vê sua fama de estrategista ser testada em um tabuleiro político particularmente complexo, onde precisa viabilizar candidaturas presidenciais com baixos índices de intenção de voto enquanto administra conflitos em sua principal base eleitoral.
Conflito em São Paulo ameaça fortaleza eleitoral
O problema mais imediato para Kassab surge justamente onde imaginava ter sua maior fortaleza: o estado de São Paulo. Nos últimos dias, o político de 65 anos vem trocando farpas públicas com o governador Tarcísio de Freitas, a quem sempre defendeu como a melhor alternativa para enfrentar o presidente Lula nas urnas. A relação, antes considerada sólida, mostra sinais evidentes de desgaste.
Kassab ficou contrariado em duas oportunidades distintas. Primeiramente, porque sonhava em concorrer ao governo paulista caso Tarcísio abraçasse uma candidatura presidencial. Posteriormente, quando o governador decidiu disputar a reeleição, alimentava a expectativa de ser escolhido como vice na chapa. Nenhuma das duas possibilidades se concretizou, levando o líder do PSD a expor publicamente seu descontentamento.
"Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão", afirmou Kassab em referência à relação de Tarcísio com Jair Bolsonaro. O governador respondeu de forma igualmente contundente: "Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros. As pessoas agem por interesse próprio, deixam de ter o pé no chão".Presidenciáveis do PSD enfrentam baixa popularidade
Enquanto administra o conflito em São Paulo, Kassab precisa lidar com outro problema de dimensões nacionais: a baixa popularidade dos possíveis presidenciáveis do PSD. A última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg revelou índices preocupantes de intenção de voto para os três nomes cotados: Ronaldo Caiado aparece com 4,9%, Ratinho Junior com 3,8% e Eduardo Leite com apenas 1,6%.
Em cenários de segundo turno, todos os três apresentam desempenhos inferiores ao de Flávio Bolsonaro, candidato apoiado por Tarcísio. Esta situação coloca Kassab em uma posição delicada, pois ele insiste em levar um dos três governadores do PSD às urnas em outubro, mesmo com as dificuldades evidentes.
Divisões internas e alianças frágeis
A postura de Kassab tem gerado divisões internas no PSD e dificultado a construção de alianças sólidas. Enquanto o presidente Lula investe na formação de palanques regionais e conta com apoios importantes do partido em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e Amazonas, Kassab sinaliza que não apoiará nem o petista nem Flávio Bolsonaro.
- Raquel Lyra, governadora de Pernambuco pelo PSD, está mais interessada em manter boas relações com Lula do que em apoiar candidato do próprio partido
- Fábio Mitidieri, primeiro governador eleito pelo PSD no Nordeste (Sergipe), já declarou que dará palanque ao petista
- Mateus Simões, que assumirá o governo de Minas Gerais em abril, afirmou que apoiará Romeu Zema (Novo) na corrida presidencial
Estratégia de centro amplo em teste
Quando fundou o PSD em 2011, Kassab definiu o partido como "não sendo de centro, nem de direita, nem de esquerda". Esta abordagem flexível permitiu que a legenda atraísse políticos de diversas tendências e crescesse consistentemente, elegendo 891 prefeiros em 2024 e aumentando de dois para seis governadores entre 2022 e 2026.
No entanto, em um cenário eleitoral polarizado, esta mesma flexibilidade pode se tornar uma fragilidade. Com 47 deputados e treze senadores, o PSD sonha em formar uma das maiores bancadas do Congresso, mas para isso precisa construir palanques fortes nos estados - algo que a postura atual de Kassab não tem facilitado.
O enxadrista político em posição delicada
Considerado um estrategista de primeira linha, Gilberto Kassab se encontra em uma situação complicada no tabuleiro político brasileiro. Economista, engenheiro civil e corretor de imóveis de formação, o político construiu uma carreira robusta que inclui passagens como vereador, secretário municipal, prefeito de São Paulo, deputado federal e ministro nos governos de Dilma Rousseff e Michel Temer.
Sua habilidade de ocupar espaços em diferentes estruturas partidárias sempre lhe conferiu prestígio nos bastidores da política. "Se a situação está complexa, prestem atenção aos movimentos de Kassab", costumam dizer analistas e colegas políticos. Agora, em 2026, o articulador terá que provar mais uma vez que sabe jogar o jogo político em condições adversas, superando obstáculos que ameaçam tanto suas ambições pessoais quanto os planos eleitorais de seu partido.
