Partidos políticos apostam em influenciadores digitais como puxadores de votos nas eleições
Influenciadores digitais viram puxadores de votos para partidos

Partidos políticos buscam influenciadores para o papel de puxadores de votos

De Chico Moedas a Jojo Todynho e Renato Cariani, a estratégia visa o alcance massivo e baixo custo para garantir cadeiras no Congresso. Com eleições acirradas à vista, partidos trocam celebridades tradicionais por influenciadores digitais como puxadores de voto, revelando uma transformação profunda na política eleitoral brasileira.

Uma mudança de perfil na busca por votos

Há duas décadas, quando as redes sociais ainda engatinhavam, os partidos costumavam recorrer a artistas, jogadores de futebol e celebridades de um modo geral para atrair eleitores, conseguir votações expressivas e impulsionar candidatos menos populares. O humorista Tiririca (PSD-SP) é o exemplo mais conhecido do sucesso dessa estratégia. Em 2010, sem qualquer experiência política, ele foi convencido a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo, recebeu mais de 1,3 milhão de votos e, durante muito tempo, ostentou o título de parlamentar mais votado do país — desempenho que, na época, permitiu à sua coligação conquistar mais três cadeiras.

Hoje, a busca por puxadores de votos continua a mesma de antes. O que mudou foi o perfil dos postulantes. Às vésperas de um processo eleitoral que promete mais um embate acirrado, as legendas estão brigando pelo passe dos chamados influenciadores digitais — figuras consideradas como referência em algum tipo de assunto no ambiente virtual e donas de um elevado contingente de seguidores.

Estratégia comum em diferentes campos políticos

A estratégia é comum nos diferentes campos políticos. Focado no projeto de reeleição de Lula e no aumento de sua bancada, o PT, por exemplo, já sondou algumas celebridades do ramo. Vice-presidente nacional do partido, o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, confirma o convite feito a Francisco Veiga, conhecido como Chico Moedas. Com 2,1 milhões de seguidores no Instagram, o influenciador de 30 anos, famoso por seu interesse em bitcoins (daí o apelido), produz conteúdo em um canal de entretenimento que tem mais de 4 milhões de inscritos, a maioria jovens.

“A política precisa se arejar cada vez mais e continuar representando as pessoas. A esquerda precisa aprender a fazer isso e se ampliar”, justifica o dirigente petista. O influenciador ainda não respondeu ao convite. Já Jones Manoel, um professor de história de 36 anos que se define como comunista e costuma participar de debates com militantes de direita, aceitou a missão. Com 1,8 milhão de seguidores, ele pretende concorrer em outubro a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PSOL.

Direita também investe nas celebridades digitais

A direita também investe nas celebridades digitais. Um dos alvos é Renato Cariani, que já esteve com o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira. Celebridade do fisiculturismo, o influenciador foi convidado a concorrer a deputado federal por São Paulo, num pacote que incluiria seu sócio, Julio Balestrin, como candidato a deputado estadual.

“Os dois agregariam muito na disputa e seriam opções com uma relação custo-benefício boa para o partido. As campanhas não custariam caro, porque ambos já são muito conhecidos e, por isso, nem precisariam pedir muito recurso do nosso fundo partidário. Basta um vídeo que postem e o alcance já é enorme, otimizando dinheiro para montar a chapa”, explica Mauricio Neves, presidente do diretório do PP em São Paulo. Juntos, Cariani e Balestrin somam mais de 16 milhões de seguidores apenas no Instagram.

PL trilha o mesmo caminho com convites estratégicos

Partido do presidente Jair Bolsonaro, o PL trilha o mesmo caminho. A legenda convidou Jojo Todynho para estrelar a campanha eleitoral no Rio de Janeiro. A influenciadora tem quase 30 milhões de seguidores que acompanham suas dicas de moda, gastronomia e entretenimento.

Outro que está na mira das legendas conservadoras é Rodrigo Pimentel, o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) que inspirou a criação do personagem Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, no filme Tropa de Elite. Ele tem 1,5 milhão de seguidores no Instagram e dedica seu perfil à produção de conteúdos relacionados à segurança pública, assunto muito caro à população fluminense e a maior preocupação dos brasileiros, segundo as pesquisas mais recentes.

Análise especializada sobre o fenômeno

“Essa onda não é uma tentativa de substituição de políticos por celebridades, como parece. O que os partidos querem é usar as redes dessa turma para garantir as vagas dos próprios políticos”, entende Glauco Peres, professor de ciências políticas da Universidade de São Paulo (USP). Por falar em celebridade, Tiririca, hoje um veterano do Congresso, pretende disputar o seu quinto mandato consecutivo, mostrando como a estratégia evoluiu, mas mantém seu cerne.

Esta nova face da política eleitoral destaca como os partidos estão adaptando suas táticas para um cenário digital, onde o alcance massivo e o engajamento nas redes sociais se tornaram ferramentas cruciais para conquistar votos e influenciar eleitores em um processo democrático cada vez mais conectado.