Disputa pelo Senado em SP: ausência de Eduardo Bolsonaro e divisões internas marcam bastidores
Consideradas estratégicas tanto pela direita quanto pela esquerda, as eleições para o Senado, que irão renovar dois terços das suas 81 cadeiras, estão movimentando as articulações dos principais partidos para a complexa montagem das chapas. Em cada estado, duas vagas estarão em disputa em outubro deste ano, com São Paulo emergindo como um dos cenários mais críticos e indefinidos.
Indefinições na direita e a vaga de Eduardo Bolsonaro
Um dos estados onde a disputa entre direita e esquerda será estratégica é São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Há indefinições dos dois lados e muita movimentação de bastidores, especialmente na chapa da direita. A costura dessa chapa terá a participação do governador Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição, e do senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.
Na direita, há muita disputa, não só entre os partidos, mas inclusive dentro das próprias legendas. Uma das vagas será do ex-secretário da Segurança Pública de Tarcísio e deputado federal Guilherme Derrite. A outra vaga, que seria de Eduardo Bolsonaro, está agora em aberto após ele se autoexilar nos Estados Unidos. Eduardo era favorito a ficar com uma das duas cadeiras em disputa, mas saiu do páreo na tentativa de pressionar a Justiça a mudar o destino de seu pai, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe.
Após perder o mandato de deputado por faltas, ele está receoso de voltar ao Brasil, porque é investigado por obstrução de Justiça no STF e teme ser preso. A vaga de Eduardo na chapa do Senado é alvo de uma disputa intensa no PL, com vários nomes em conflito.
Disputa interna no PL e os nomes em jogo
O nome que mais agrada ao filho Zero Três é o do deputado Mario Frias, ex-secretário de Cultura de Bolsonaro e deputado federal. Ele é visto pela família como um político fiel e comprometido ideologicamente com as bandeiras mais radicais da direita. No entanto, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro gostaria de emplacar uma fiel escudeira do PL Mulher em São Paulo, a deputada federal Rosana Valle, cujo nome enfrenta a resistência de Eduardo.
"Meu foco segue sendo o mandato que exerço e a reeleição. Caso haja consenso dos líderes do partido quanto à candidatura ao Senado, vamos reavaliar", diz a parlamentar Rosana Valle. Nos bastidores, a opção por Rosana é vendida como uma alternativa para dar mais diversidade à chapa, principalmente se Lula construir uma aliança que inclua as ministras Simone Tebet e Marina Silva.
Mas a possibilidade de criar encrenca com Eduardo Bolsonaro deve impedir que a ex-primeira-dama consiga emplacar sua aliada. "Rosana é um excelente nome, mas tem apoio da Michelle. Consequentemente, não tem apoio do Eduardo", diz um integrante do PL. Há, ainda, outros nomes no páreo dentro do PL, como o deputado federal Marco Feliciano e o vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo.
Além disso, é quase certo que haverá outros nomes na direita fora do PL na disputa, como o ex-ministro Ricardo Salles, que já confirmou a sua candidatura. A complexidade da montagem da chapa reflete as tensões internas e as estratégias eleitorais em jogo.
Disputa para ser vice de Tarcísio e os interesses partidários
O desfecho da montagem da chapa ao Senado passa também pela definição do candidato a vice-governador na chapa de Tarcísio, onde também há uma briga intensa. Potencial candidato à Presidência daqui a quatro anos, Tarcísio deixaria, em abril de 2030, o posto a seu colega de chapa, que se tornaria um nome forte para a sucessão em São Paulo.
O PL de Flávio quer a vaga, que hoje é de Felicio Ramuth, aliado de Gilberto Kassab. Cacique nacional do PL e político com interesses no estado, Valdemar Costa Neto deseja emplacar André do Prado, atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, no posto. Colocar o PL no posto de vice criaria problemas a Tarcísio porque ele teria que enfrentar a ira de Kassab, que só aceita tirar Ramuth do posto se for para ele mesmo assumir o lugar.
"O André seria o melhor nome, mas o PL já está sendo contemplado com a vaga do Senado", afirma um político próximo a Tarcísio. A negociação envolve acomodar o PSD, que é a sigla que comanda mais prefeituras no estado, com 206 municípios, quase um terço do total.
Indefinições na esquerda e as opções de Lula
Na chapa que irá apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o xadrez também é parecido. Hoje, existem cinco opções nas mãos do petista para preencher as quatro vagas: governador, vice e duas vagas ao Senado. As opções incluem o vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva e Márcio França.
Lula gostaria de ter Alckmin na cabeça de chapa, com Haddad e Tebet disputando o Senado, mas o ex-tucano não tem mostrado interesse nenhum em ir para a disputa em São Paulo, preferindo continuar como vice-presidente. Sem ele, a alternativa preferida de Lula seria Haddad, que foi ao segundo turno contra Tarcísio em 2022, mas o ministro da Fazenda também não tem se entusiasmado com a missão.
Simone Tebet, que deve trocar o MDB por outro partido, talvez o PSB, pode ser uma opção tanto para o governo quanto para o Senado. Marina, que também irá mudar de legenda, com convites do PSB, PT e PSOL, é uma opção apenas para o Senado. Já Márcio França gostaria de disputar a eleição ao governo, mas é visto como uma alternativa secundária pelo entorno de Lula.
As indefinições em ambos os lados do espectro político destacam a complexidade e a importância estratégica da eleição para o Senado em São Paulo. Com o maior colégio eleitoral do país em jogo, as decisões tomadas nos bastidores terão um impacto significativo no cenário político nacional.



