O Caso Banco Master e a Cultura Política Brasileira: Uma Análise Sociológica
Banco Master e Cultura Política Brasileira: Análise

Há, nos fenômenos sociais e políticos, momentos que podem ser considerados de síntese. Estamos, há meses, debruçados sobre o episódio do extinto Banco Master e do banqueiro Daniel Vorcaro. Um escândalo que se encontra com a cultura política brasileira e, objetivando deslindar esse emaranhado de fatos, recorrer a alguns autores e suas obras pode ser profícuo.

Capitalismo de Laços: O Conceito de Lazzarini

Em primeiro lugar, Sérgio G. Lazzarini, em sua obra Capitalismo de laços, publicada em 2011, faz a seguinte afirmação, à guisa de definição conceitual: “Esse emaranhado de contatos, alianças e estratégias de apoio gravitando em torno de interesses políticos e econômicos é o que eu denomino de capitalismo de laços. Trata-se de um modelo assentado no uso de relações para explorar oportunidades de mercado ou para influenciar determinadas decisões de interesse. Essas relações podem ocorrer somente com atores privados, muito embora grande parte da movimentação corporativa envolva, também, governos e demais atores da esfera pública”. E continua: “À primeira vista, o termo “laços” pode denotar relações próximas, íntimas, duradouras. Aqui, entretanto, o significado é mais no sentido de relações sociais valiosas: um contato pessoal que é estabelecido para obter algum benefício particular ou, ainda, um gesto de apoio visando algo em troca no futuro. Evidentemente, essas relações recíprocas são favorecidas por laços pessoais fortes”.

Poder-se-ia, apenas com estas duas citações de Lazzarini, repassar tudo o que já foi noticiado acerca do Banco Master e de Vorcaro. As relações pessoais e tentaculares de Vorcaro foram capazes de capturar – com relativa tranquilidade – atores políticos e institucionais nos três Poderes da república. Aliás, trata-se de uma captura, por sua origem e função, nada republicana, já que a salutar fronteira entre interesses públicos e privados não foi respeitada. Festas nababescas, jatinhos particulares, contratos milionários de consultoria, mulheres belíssimas, bebidas caríssimas, agrados, sorrisos, abraços e relações corporais próximas – tudo isso não é apenas atinente a este caso do Master, mas, essencialmente, a um padrão sociológico e político de nosso “capitalismo tardio”.

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Homem Cordial e Jeitinho Brasileiro: Holanda e DaMatta

Não menos importante, estão consolidadas as contribuições de Sérgio Buarque de Holanda, no clássico Raízes do Brasil, e de Roberto DaMatta, em Carnavais, malandros e heróis. Holanda, ao definir o homem cordial, assevera que não se trata de educação, polidez e civilidade; mas, sim, de ações assentadas num fundo emotivo e não na razão. DaMatta, por sua vez, ao tratar do famigerado conceito de “jeitinho” e “malandragem” afirma que, no Brasil, há um dilema: um conjunto de regras abstratas e impessoais, derivadas da racionalidade e uma sociedade que privilegia as relações pessoais e os laços, oriundos dos afetos. Vorcaro, na condição de banqueiro, milionário, promoveu festas e sabia como poucos agradar aqueles que, em seu círculo de relacionamento, pudessem lhe trazer facilidades ou benesses. Era notória seu afeto e bondade para com os amigos. Todavia, ao mesmo tempo, tinha à disposição seu “sicário”, indivíduo responsável por monitorar e intimidar os que fossem entendidos como desafetos e inimigos, obstáculos aos seus projetos pessoais e empresariais.

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País dos Privilégios: A Análise de Carazza e Faoro

Ao se debruçar sobre os que se assenhoram de espaços governamentais e institucionais na formulação de privilégios, outra excelente opção de leitura interpretativa é a de Bruno Carazza. Em O país dos privilégios – Vol. 1: Os novos e velhos donos do poder, o autor fornece importantes pistas para desvendar esse encontro de interesses, mormente, quando os interesses privados ganham força em detrimento dos interesses públicos. Carazza, como se depreende do título, dialoga com Raymundo Faoro, em seu clássico Os donos do poder, publicado originalmente em 1958. E, citando Faoro, temos, como desdobramento de nossa colonização: “O capitalismo politicamente orientado – o capitalismo político, ou o pré-capitalismo -, centro da aventura, da conquista e da colonização moldou a realidade estatal, sobrevivendo, e incorporando na sobrevivência o capitalismo moderno, de índole industrial, racional na técnica e fundado na liberdade do indivíduo – liberdade de negociar, de contratar, de gerir a propriedade sob a garantia das instituições. A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente […] Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo […]”.

Síntese: Um Padrão Persistente

Num cardápio à la carte ou num self-service pode-se escolher os elementos culturais da sociedade, da política e, não raro, do ambiente de negócios no Brasil: personalismo, patrimonialismo, cordialidade, capitalismo politicamente orientado, capitalismo de laços, favor, dificuldade de separação de interesses públicos e privados, enfim, uma síntese – obviamente, com gradações – capaz de revelar a permanência de alicerces estruturais que permitem no âmbito conjuntural práticas de corrupção ou de condutas antirrepublicanas. O caso do Banco Master não revela uma exceção, mas uma regra persistente. Não se trata apenas de um banqueiro hábil em cultivar relações e capturar influências, mas da atualização contemporânea de um padrão histórico em que o público e o privado se confundem, em que o favor suplanta a norma e em que a proximidade pessoal vale mais do que a impessoalidade institucional. O escândalo, portanto, não está apenas em Daniel Vorcaro ou no Banco Master, mas na naturalidade com que tais práticas ainda encontram abrigo na vida pública brasileira. Talvez o verdadeiro problema não seja o escândalo em si, mas o fato de ele nos parecer, mais uma vez, familiar demais.

Rodrigo Augusto Prando é professor universitário e pesquisador. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia pela Unesp. Membro da Comissão Permanente de Estudos de Políticas e Mídias Sociais do Instituto dos Advogados de São Paulo e voluntário do Movimento Escoteiro. Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA.