Pressão europeia tenta conter desmatamento após fim da Moratória da Soja na Amazônia
Europa pressiona por fim do desmatamento após moratória da soja

Pressão europeia tenta conter desmatamento após fim da Moratória da Soja na Amazônia

O enfraquecimento da Moratória da Soja na Amazônia, um pacto ambiental crucial que durou quase duas décadas, está gerando uma reação imediata e significativa de grandes redes de supermercados da Europa. Essas empresas estão intensificando a pressão sobre as tradings globais de grãos para evitar um colapso total do acordo, que historicamente freou a expansão da agricultura sobre áreas recém-desmatadas da floresta.

O temor é que o fim da moratória desencadeie uma corrida por novas áreas agrícolas na Amazônia, ameaçando a credibilidade ambiental das cadeias globais de alimentos e acelerando o desmatamento, que já foi responsável por 30% das emissões no Brasil em 2023.

Reação europeia e risco para o comércio internacional

Redes de supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo gigantes como Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Aldi, Morrisons, Marks & Spencer e a cooperativa Co-op, enviaram uma carta aberta a empresas como Cargill (EUA), Bunge, Louis Dreyfuss (Brasil) e à estatal chinesa Cofco. Essas tradings são acusadas de flexibilizar seus compromissos ambientais, o que preocupa os varejistas europeus.

Na carta, as redes alertam que o abandono do pacto pode provocar uma reação negativa dos consumidores europeus, que são cada vez mais conscientes sobre questões ambientais. A Europa consome cerca de 10% da soja produzida no mundo, majoritariamente para alimentação animal, tornando essa pressão econômica significativa.

Para os supermercados, a ausência de um acordo robusto cria insegurança jurídica e reputacional. Eles afirmam que continuarão a aplicar, de forma unilateral, o princípio central da moratória e cobram das tradings garantias claras de rastreabilidade, monitoramento e verificação independente.

O que foi a Moratória da Soja e por que entrou em colapso

Criada em 2006, a Moratória da Soja surgiu após forte pressão internacional de organizações ambientais, como Greenpeace e WWF. O acordo voluntário reuniu produtores, tradings, sociedade civil e governo brasileiro, estabelecendo que nenhuma empresa signatária poderia comprar soja cultivada em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008.

O mecanismo foi reforçado por sistemas independentes de monitoramento por satélite e auditorias periódicas, sendo considerado decisivo para desacoplar o crescimento da produção de soja do desmatamento direto na Amazônia. Estima-se que cerca de 17 mil km² de floresta deixaram de ser derrubados desde sua implementação.

Nos últimos dois anos, porém, o acordo passou a ser alvo de ataques crescentes do lobby do agronegócio no Brasil, especialmente em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país. Parlamentares estaduais revogaram incentivos fiscais concedidos a empresas que participavam da moratória, alegando que o pacto penalizava produtores locais.

Paralelamente, o governo brasileiro questionou o acordo sob a ótica da concorrência, o que levou as grandes tradings a recuar. Em janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) retirou seu nome do site oficial da moratória, sinalizando a saída formal das principais empresas do pacto.

Risco de efeito dominó e impactos ambientais

O temor de ambientalistas é que o fim do acordo desencadeie uma corrida por novas áreas agrícolas na Amazônia. Estudos científicos indicam que a floresta se aproxima de um ponto de não retorno, a partir do qual grandes porções podem entrar em processo de savanização, com impactos diretos sobre o regime de chuvas no Brasil e na América do Sul.

Organizações como Greenpeace e WWF afirmam que especuladores de terras já avançam sobre áreas da floresta, apostando que o marco temporal de 2008 será flexibilizado ou abandonado. Caso isso ocorra, alertam, uma área equivalente ao território de Portugal pode ser aberta à expansão da soja.

Investigações recentes, como as da Repórter Brasil, mostram sinais de flexibilização por parte das tradings. Por exemplo, a Cargill alterou, em alguns documentos, o marco temporal de seus compromissos para 2020, o que ampliaria significativamente a área passível de conversão agrícola.

Para os supermercados europeus, o impasse não é apenas ambiental, mas econômico. Sem salvaguardas claras, cresce o risco de boicotes de consumidores e de instabilidade nas cadeias globais de alimentos, o que poderia afetar negócios em escala global.