O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky alertou que Kiev responderá “de forma simétrica” a qualquer violação do cessar-fogo que entrou em vigor à meia-noite desta quarta-feira. A trégua, anunciada unilateralmente pela Ucrânia, antecipa em 48 horas uma pausa solicitada por Moscou para os dias 8 e 9 de maio, durante as comemorações da vitória sobre a Alemanha nazista em 1945.
Cessar-fogo em vigor, mas alertas persistem
O cessar-fogo ucraniano começou após uma série de ataques russos na véspera que deixaram pelo menos 28 mortos. Às 00h (horário de Brasília), seis horas após o início da trégua, as autoridades russas não registraram nenhum ataque vindo da Ucrânia. No lado ucraniano, no entanto, alertas foram emitidos nas regiões de Kherson, Zaporíjia, Donetsk, Kharkiv, Sumy e Mykolaiv.
Zelensky anunciou a trégua, de duração indefinida, na segunda-feira, em resposta à proposta do presidente russo Vladimir Putin para as celebrações de 9 de maio, mas condicionou sua continuidade ao cumprimento por parte de Moscou. “Precisamos que esses ataques e todos os outros do mesmo tipo parem todos os dias, e não apenas por algumas horas em algum lugar, em nome de ‘celebrações’”, afirmou Zelensky. “É um cinismo absoluto pedir um cessar-fogo para organizar celebrações de propaganda, enquanto ataques como esses acontecem todos os dias”, criticou o presidente, referindo-se aos bombardeios de terça-feira.
Ataques recentes e acusações mútuas
Os ataques russos de terça-feira mataram 12 pessoas em Zaporíjia, seis em Kramatorsk, quatro em Dnipro, quatro em Poltava, uma em Kharkiv e uma em Nikopol. Por outro lado, um ataque ucraniano com drones na península da Crimeia — anexada unilateralmente pela Rússia em 2014 — deixou cinco mortos na noite de terça-feira na cidade de Dzhankoi, segundo autoridades russas.
“A poucas horas da entrada em vigor da proposta de cessar-fogo da Ucrânia, a Rússia não demonstra qualquer sinal de que pretende encerrar as hostilidades. Pelo contrário, Moscou intensifica o terror”, acusou o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, na rede social X, na noite de terça-feira.
Contexto da guerra e negociações
A Ucrânia há muito pede uma trégua prolongada para facilitar negociações com o objetivo de encerrar a guerra iniciada com a invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022 — o conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. A guerra também foi tema de uma conversa telefônica na terça-feira entre o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, segundo o Departamento de Estado norte-americano.
O analista político ucraniano Volodymyr Fesenko afirmou à agência France-Presse (AFP) que o anúncio da trégua por Kiev é uma manobra tática nos campos “informativo e político”. “Se a Rússia não respeitar o nosso cessar-fogo, temos o direito de não respeitar o dela. Isso anula a iniciativa de Putin”, disse Fesenko, considerando “quase certo” que nenhuma das tréguas será totalmente respeitada.
Em abril, um cessar-fogo de 32 horas durante a Páscoa ortodoxa foi violado várias vezes na linha de frente, embora tenha havido uma redução nos ataques aéreos de longo alcance. Moscou rejeita um cessar-fogo duradouro, argumentando que isso permitiria a Kiev reforçar suas defesas. A Rússia exige, antes de qualquer interrupção dos combates, que a Ucrânia ceda a região de Donetsk (leste), atualmente sob controle parcial das forças russas.
A área controlada pela Rússia na Ucrânia diminuiu cerca de 120 quilômetros quadrados em abril, a primeira redução desde o verão de 2023, segundo análise da AFP com base em dados do Instituto para o Estudo da Guerra.



