Nesta quarta-feira (13), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca na China para uma viagem que promete ser histórica. O líder americano enfrenta com os chineses a mais intensa guerra comercial já registrada, com tarifas que chegaram a quase 150%. Agora, Trump busca fechar novos acordos e levará em sua comitiva 16 executivos de grandes corporações, incluindo gigantes da tecnologia como Apple, X e Meta. Os correspondentes Felipe Santana e Lucas Louis explicam o que está em jogo no encontro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping.
O tabuleiro geopolítico
Por décadas, o mundo funcionou como um tabuleiro de xadrez: dois lados, oponentes claros e regras definidas. O cavalo americano avançava rumo ao xeque-mate. Esse era o cenário da Guerra Fria, uma disputa linear entre Estados Unidos e União Soviética, onde cada movimento tinha um significado simbólico. A China, na época, não participava do jogo. Era um país pobre, com grande parte da população passando fome. No entanto, silenciosamente, o país asiático começou a traçar sua própria estratégia.
O crescimento chinês
O primeiro passo foi investir na construção de fábricas. Os americanos perceberam que poderiam terceirizar o trabalho repetitivo, mantendo as ideias e fabricando do outro lado do mundo a um custo muito menor. Por isso, apoiaram a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Os Estados Unidos se sentiram mais ricos e puderam se desenvolver em outras áreas da economia, enquanto o mundo passou a receber uma enxurrada de produtos "made in China". As linhas de produção globais foram integradas, e os países tornaram-se cada vez mais interdependentes para fabricar qualquer item. Assim, a China cresceu de 8% a 10% ao ano por décadas, primeiro fabricando, depois copiando e, por fim, inovando.
A virada de jogo
Em 2011, os Estados Unidos acordaram. O presidente Barack Obama lançou o programa Pivô para a Ásia, reconhecendo que o poder mundial estava se deslocando para o Oriente. Ele enviou 60% da frota americana para o Pacífico, fortaleceu alianças com Japão, Coreia do Sul e Filipinas, e criou um grande acordo comercial que estabelecia regras trabalhistas, ambientais e financeiras não previstas nos livros chineses. Na prática, isso excluía a China do comércio. Foi um movimento estratégico no tabuleiro de xadrez. A China percebeu que os Estados Unidos não eram mais parceiros, mas competidores. A resposta foi continuar fabricando produtos baratos, mas também investir em itens mais caros e sofisticados, além de criar parcerias estratégicas com grande parte do mundo.
A era Trump
Até que Donald Trump chegou ao poder. Ele se tornou o verdadeiro pivô para a Ásia, abandonando as alianças de Obama e intensificando a competição com a China. Trump impôs tarifas para desfazer a cadeia global de suprimentos e trazer as fábricas de volta aos Estados Unidos. Em vez de jogar xadrez, ele optou pelo pôquer, onde blefar é mais importante do que as cartas que se tem na mão. Quando Joe Biden assumiu, retomou o xadrez estratégico, com o foco em garantir que os EUA tivessem os suprimentos necessários para o avanço tecnológico, especialmente chips.
O jogo de mahjong
Trump voltou ao poder e a polarização entre republicanos e democratas ficou ainda mais evidente. Ele novamente deixou o xadrez de lado. Mas e se Xi Jinping nunca estivesse jogando o jogo dos americanos? E se ele estivesse jogando mahjong, um jogo cultural chinês? No mahjong, não se joga contra um adversário, mas em grupo, e o objetivo não é eliminar o rei inimigo, mas dominar a mesa estrategicamente. Xi Jinping vê uma mesa com vários jogadores e forma alianças flexíveis. Ele investe em obras em países que exportam matérias-primas para a China, em portos para receber produtos chineses ou em acordos de cooperação tecnológica e vigilância. Hoje, a China é a principal parceira comercial da maioria dos países do mundo.
Por isso, a visita de Trump é histórica. Os dois presidentes se encontrarão em um jogo onde cada movimento é crucial. Mas, pela primeira vez, os Estados Unidos não estarão jogando xadrez, sem ainda saber qual tabuleiro o planeta usará. Será um jogo de alianças, sem esperar um xeque-mate.



