Nobel da Paz iraniana Narges Mohammadi recebe alta hospitalar e volta para casa
Narges Mohammadi recebe alta e volta para casa

A vencedora iraniana do Nobel da Paz, Narges Mohammadi, que estava presa pelo regime iraniano, recebeu alta do hospital onde estava internada e conseguiu autorização para voltar para casa, informou nesta segunda-feira (18) a fundação administrada por sua família.

Estado de saúde e internação

Mohammadi, de 53 anos, estava internada havia semanas após o regime dos aiatolás autorizar sua transferência para um hospital. Ela sofre de problemas cardíacos, desenvolvidos durante os mais de 20 anos que já passou na prisão. Na semana passada, seu estado de saúde piorou, conforme informou seu instituto na quarta-feira (13). A fundação que leva seu nome afirmou que a ativista teve uma deterioração grave da condição cardíaca e do sistema nervoso.

Sua fundação relatou que ela foi submetida a um exame de avaliação angiográfica com urgência, que apontou deterioração da doença vascular e danos no cérebro. "Os achados dessa avaliação angiográfica indicam deterioração significativa e progressão da doença vascular. Sua equipe médica anunciou hoje que uma parte do sistema nervoso central no cérebro, responsável pelo controle autônomo e pela regulação precisa da pressão arterial, sofreu comprometimento funcional", disse o instituto em nota.

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Liberdade condicional e pressão internacional

Nas últimas semanas, o estado de saúde da ativista se tornou crítico, segundo parentes. Após apelos e pressão, inclusive do Instituto do Prêmio Nobel, o regime iraniano autorizou a liberdade condicional sob fiança para que ela fosse levada a um hospital. Mohammadi estava presa desde dezembro na prisão da cidade de Zanjan. Na prisão, sofreu um infarto e perdeu a consciência duas vezes, além de desenvolver um coágulo sanguíneo no pulmão. Parentes afirmam que ela foi espancada no presídio.

Desde que foi hospitalizada, sua pressão arterial tem oscilado entre extremamente baixa e extremamente alta. Ela está recebendo oxigênio para respirar e não consegue falar, segundo seu irmão. A iraniana ainda tem 18 anos de prisão restantes. "Devemos garantir que ela nunca retorne à prisão para cumprir os 18 anos restantes de sua sentença. Agora é a hora de exigir sua liberdade incondicional e a retirada de todas as acusações", disse a fundação à agência de notícias Associated Press.

A recomendação para que ela deixasse a prisão partiu de uma comissão médica indicada pelo próprio regime iraniano. Após uma inspeção, os médicos declararam que, "devido às suas múltiplas doenças, ela precisa continuar o tratamento fora da prisão e sob a supervisão de sua própria equipe médica". O Comitê do Nobel também pediu às autoridades iranianas que transferissem Mohammadi para sua equipe médica dedicada em Teerã, afirmando que "sem esse tratamento, sua vida continua em risco".

Trajetória de luta e ativismo

Narges Mohammadi, mãe de gêmeos e engenheira, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2023 enquanto estava na prisão. Há duas décadas, é uma das principais defensoras dos direitos das mulheres e da abolição da pena de morte no Irã, um dos países que mais utilizam esse método de punição no mundo. Ela já foi presa seis vezes, a primeira delas há 22 anos. Desde janeiro de 2022, cumpre pena de 10 anos e 9 meses de prisão por espalhar propaganda contra o governo no presídio de Evin, em Teerã, conhecido por abrigar críticos do regime.

"Narges é uma defensora dos direitos humanos e uma pessoa que luta pela liberdade. Nós queremos apoiar sua luta corajosa e reconhecer milhares de pessoas que se manifestaram contra o regime teocrático de repressão e discriminação que tem como alvo as mulheres no Irã", declarou a presidente do Comitê do Nobel, Berit Reiss-Andersen, em 2023. Mesmo atrás das grades, Mohammadi é vice-diretora do Centro de Defensores dos Direitos Humanos do Irã, organização não governamental liderada por Shirin Ebadi, ganhadora do Nobel da Paz em 2003.

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Ela se tornou um dos principais nomes da chamada revolução feminina, a onda de protestos de mulheres no Irã que começou com a morte de Mahsa Amini. Amini era uma jovem de 22 anos que, em setembro de 2022, viajava de férias com a família pelo Irã quando foi abordada pela polícia da moralidade, que fiscaliza o cumprimento das normas de vestimentas impostas a mulheres iranianas. A jovem foi presa por "uso incorreto" do véu, segundo a polícia iraniana. Dois dias depois, ainda sob custódia policial, foi internada em estado grave, com lesões na cabeça, e morreu no hospital. A morte de Mahsa Amini desencadeou um dos maiores movimentos contra o regime do Irã.