Flipoços 2026: médica alerta sobre 'endividamento dos afetos' em festival literário
Flipoços: médica alerta sobre endividamento dos afetos

O Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços) reúne escritores e leitores em mais de 200 atividades até o próximo domingo (3). Entre os destaques, a médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes participou de uma mesa sobre afetos e finitude.

Endividamento dos afetos

Segundo Ana Claudia, vivemos um momento de 'endividamento dos nossos afetos'. Acumulamos dívidas que não aparecem em extratos bancários, mas pesam silenciosamente nas relações e determinam como terminaremos nossos dias. 'A vida reserva para a gente uma morte na medida da nossa vida. E isso inclui como fomos com as pessoas que estão à nossa volta', afirma.

A médica, autora de livros como 'A morte é um dia que vale a pena viver', destaca que o que deveria assustar não é a morte em si, mas a possibilidade de chegar ao fim da vida sem aproveitá-la. Durante a mesa 'Amar até o fim: afetos, cuidado e a condição humana', realizada em conjunto com o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, ela questionou: 'Quem vai te amar até o fim da vida?'

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Gestos simples e conexões

Ana Claudia observa que a dívida é de gestos simples não realizados: uma visita adiada, uma ligação não feita, um encontro que não sai do plano. Na correria cotidiana, pequenos adiamentos se acumulam até se tornarem grandes débitos. 'Pense em uma pessoa que faz tempo que você não vê e saiba que essa pessoa vai morrer um dia. E pode ser que você se arrependa de não ter ficado cinco minutos ali', provoca.

Ela chama a atenção para a ironia de que, no momento de mais conexão tecnológica, o ser humano está mais desconectado das suas relações. 'Tem um monte de mãe que fica reclamando que o filho não liga, mas a criatura não liga para os filhos. Você quer ouvir a voz do seu filho ou você quer que ele te ligue?', questiona.

Poupança de afetos

Ela sugere gestos como enviar um áudio dizendo 'eu te amo', que ganham enorme importância no momento de luto. 'O dia em que você morrer, quem recebeu vai encontrar esse áudio. E isso vai salvar a vida dele.' Estes gestos de presença abastecem uma poupança para o futuro.

A médica alerta que nem todos os afetos estarão ao lado no fim da vida. As pessoas que permanecem são resultado de relações cultivadas ao longo do tempo. 'É uma grande prova para saber se você realmente escolheu bem as pessoas à sua volta, quem vai dar conta de olhar para você no final da vida. O amar até o fim é capaz de lidar com o feio, com o difícil. Afeto é você ter a coragem de estar junto, mesmo estando cansado.'

Dificuldade de cuidar

Ana aponta que a capacidade de permanecer é cada vez mais escassa, não apenas por falta de tempo, mas por dificuldade emocional. Estar com alguém no fim da vida implica lidar com dor, limites e finitude, temas que muitos evitam. A dificuldade de cuidar está ligada a um baixo poder de conexão e à incapacidade de lidar com as próprias emoções. A solução para quitar as 'dívidas' exige atenção ao essencial: tempo, presença e disponibilidade emocional.

No fim, ela deixa uma provocação: 'Quem você vai ser quando for ausência? Vai ser saudade ou vai ser alívio?'

Sobre o Flipoços

O Festival Internacional de Literatura de Poços de Caldas (Flipoços) é um dos principais eventos literários do Brasil. A 21ª edição ocorre entre 25 de abril e 3 de maio, no Parque José Afonso Junqueira, com mais de 200 atividades literárias, musicais e gastronômicas. A temática deste ano são cartas e diários na literatura.

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