Família egípcia retida há 16 dias no Aeroporto de Guarulhos pede refúgio
Família egípcia retida há 16 dias no Aeroporto de Guarulhos

Mais de dez organizações que atuam na defesa dos direitos de migrantes e refugiados manifestaram profunda preocupação com a situação de uma família egípcia retida na área restrita do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, desde o dia 8 de abril. O caso, que já dura 16 dias, envolve uma gestante de 34 semanas e duas crianças pequenas, uma delas com doença celíaca e intolerância à lactose.

Entidades alertam para risco à vida

De acordo com o advogado Willian Fernandes, responsável pelo caso, o jovem Abdallah Montaser chegou ao Brasil com a esposa grávida e os dois filhos, solicitando refúgio. No entanto, não obtiveram retorno das autoridades brasileiras. O manifesto, assinado por entidades como o Centro da Mulher Imigrante e Refugiada (CEMIR), o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) e a Comissão Justiça e Paz de São Paulo (CJP/SP), classifica a situação como de extrema gravidade.

Segundo o documento, a gestante relatou ausência de movimentos fetais, indicando risco concreto à vida do nascituro. As organizações afirmam que a permanência da família em área restrita, sem solução célere e sem acompanhamento médico adequado, configura potencial violação de direitos humanos, especialmente o direito à saúde, à dignidade e à proteção integral de crianças e gestantes.

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Precedente trágico

O manifesto cita o caso de Evans Osei Wusu, ganês de 39 anos que morreu em 2024 após ficar retido no mesmo aeroporto enquanto buscava proteção internacional. Na ocasião, foram relatadas falhas no acesso a atendimento médico, contribuindo para o agravamento de seu quadro clínico. As entidades alertam que situações como a da família egípcia não podem ser tratadas com normalidade, sob pena de repetição de desfechos irreversíveis.

Falta de coordenação entre órgãos

As organizações apontam a ausência de atuação coordenada entre a Polícia Federal, o Ministério da Justiça e o Ministério das Relações Exteriores, diante de um caso que exige resposta imediata e humanitária. Também demonstram preocupação com a eventual adoção de medidas de repatriação ou remoção compulsória, sem análise das condições humanitárias e de saúde da família.

Exigências das entidades

Diante da gravidade, as entidades exigem:

  • Atendimento médico urgente para a gestante, com avaliação do estado de saúde do feto;
  • Condições dignas de permanência para a família;
  • Solução humanitária imediata;
  • Acompanhamento da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados;
  • Revisão de práticas administrativas no controle migratório que restrinjam direitos sem garantias de devido processo legal.

O documento afirma que o Estado brasileiro já foi informado sobre a gravidade do caso e que a ausência de resposta adequada pode implicar responsabilidade institucional por eventuais desfechos irreversíveis.

Relato da família

Em vídeo enviado ao g1, Abdallah Montaser relatou: "Temos visto de turista válido, mas não nos permitiram entrar no Brasil. Solicitamos asilo, mas continuamos detidos aqui. Estou com minha esposa, que tem gravidez de alto risco, e dois filhos. Um deles tem doença celíaca e intolerância à lactose. Esperamos que nosso caso seja resolvido rapidamente, pois o impacto psicológico e de saúde em nossa família se tornou extremamente grave."

A família está hospedada em um hotel dentro da área restrita do aeroporto. A defesa sustenta que há indícios de violação humanitária, agravados pela demora na análise do pedido de refúgio.

Posição do advogado

O advogado Willian Fernandes já solicitou urgência na análise do pedido de refúgio ao governo federal e acionou instituições de proteção a vulneráveis. "A Constituição brasileira e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil não permitem que situações como essa sejam tratadas apenas sob a ótica restritiva do controle migratório. Há deveres claros de proteção, especialmente quando estamos diante de pessoas em condição de vulnerabilidade", destacou.

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Manifestação do CDHIC

Paulo Illes, diretor do CDHIC, afirmou: "Trata-se de um caso humanitário evidente. A manutenção dessa família em área de restrição por tantos dias, especialmente com uma gestante e crianças, é incompatível com os princípios básicos de proteção à dignidade humana. O Brasil tem tradição de acolhimento e compromissos internacionais que precisam ser respeitados na prática."

O g1 entrou em contato com a Polícia Federal, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.