Um estudo publicado na revista científica britânica Royal Society Open Science revelou que as baleias-jubartes (Megaptera novaeangliae) podem nadar distâncias muito maiores do que se imaginava. A pesquisa comprovou que esses animais, que chegam a 16 metros de comprimento e 40 toneladas, são capazes de cruzar oceanos em viagens que ultrapassam 15 mil quilômetros.
Registros brasileiros
A descoberta teve como base registros fotográficos feitos por brasileiros, como Julio Cardoso, que desde 2004 observa baleias, golfinhos e aves no Litoral Norte de São Paulo. O artigo contou com a colaboração de Cristina Castro Ayala, Stephanie Stack, Milton Marcondes, Ted Cheeseman, Jens Currie, Arlaine Francisco, Marilia Olio, Bianca Righi e Renata Sousa-Lima.
Identificação pela cauda
O estudo foi possível graças à plataforma Happywhale, de ciência cidadã, onde fotos de baleias são postadas. A identificação é feita pela cauda, que possui marcas únicas, como impressões digitais. Com data e local das fotos, o sistema rastreia as rotas dos indivíduos. Foram avaliados 10.341 registros no Atlântico Sul e 8.942 na Austrália, entre 1984 e 2025.
Travessias transoceânicas
Um caso emblemático: uma baleia fotografada em 2007 na Austrália foi vista novamente em 2013 na mesma região. Em 2019, foi registrada em Ilhabela (SP) por Julio Cardoso, nadando sozinha em direção ao Nordeste. Ela percorreu 14.200 km entre os oceanos Pacífico e Atlântico.
Outro caso: em 2003, uma baleia foi registrada em Abrolhos (BA) por Renata Sousa-Lima. Em setembro de 2025, foi avistada em Hervey Bay, Austrália, completando 15.100 km. Estima-se que fosse um macho, devido a cicatrizes e comportamento competitivo.
Genética e ciência cidadã
A publicação levanta novas questões. Antes, pensava-se que as baleias ficassem restritas a um oceano. Agora, comprovou-se que há troca entre oceanos, o que enriquece a diversidade genética. Julio Cardoso destaca que em 2025 houve recorde de jubartes no Litoral Norte de SP, com 836 avistamentos. Em 2026, até 18 de maio, 33 baleias foram vistas em Ilhabela.
Para fortalecer o monitoramento, está sendo criada a associação 'Probaleia', dedicada à ciência-cidadã, com fotógrafos e pesquisadores. 'A ideia é ampliar o trabalho do Projeto Baleia à Vista e avançar no catálogo de foto-id de cetáceos', explica Julio.



