SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar encerrou a quinta-feira (21) praticamente estável, com leve queda de 0,04%, cotado a R$ 5,001, em meio a um pregão marcado por incertezas e volatilidade decorrentes das negociações entre Estados Unidos e Irã. Durante a maior parte do dia, os ativos domésticos sofreram pressão devido à alta do petróleo e aos receios de inflação e juros globais elevados. No período da tarde, rumores de um possível acordo no Oriente Médio aliviaram a commodity e estimularam a busca por ativos de risco, beneficiando o real e a Bolsa de Valores. Contudo, a falta de confirmação oficial de uma trégua limitou os impactos positivos.
Bolsa fecha em alta modesta
Em meio às incertezas, a Bolsa encerrou o dia com alta de 0,16%, alcançando os 177.649 pontos. A volatilidade se intensificou durante a tarde, com os rumores de um acordo provocando uma tímida correção na trajetória dos ativos. De acordo com informações divulgadas pela agência Ilna, citando a TV árabe Al Arabiya, um acordo entre os países teria sido alcançado com a mediação do Paquistão e seria anunciado nas próximas horas. No entanto, a informação não foi confirmada pelos governos envolvidos nem pelas principais agências de notícias do Irã.
Otimismo de Marco Rubio
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, manifestou otimismo nesta quinta-feira sobre a possibilidade de um acordo para encerrar o conflito. "Acredito que os paquistaneses viajarão hoje a Teerã. Então esperemos que isso impulsione o processo", afirmou. Segundo a agência iraniana Isna, o chefe do exército do Paquistão, Asim Munir, viaja a Teerã nesta quinta para "continuar as conversas com as autoridades iranianas", sem fornecer mais detalhes.
Impacto nos mercados
Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a expectativa por um acordo foi responsável pelo alívio no pregão. "O cenário melhorou após relatos da mídia saudita sinalizarem o anúncio de um acordo de cessar-fogo. A novidade disparou uma liquidação no petróleo e impulsionou as Bolsas mundiais. No entanto, as informações ainda foram insuficientes para justificar uma queda mais ampla no preço da commodity", explicou.
Impasse nuclear
As informações se somaram a um impasse entre os países. Segundo porta-vozes de alto escalão do regime iraniano disseram à Reuters, Mojtaba Khamenei, líder supremo do Irã, emitiu uma diretriz determinando que o urânio do país não deve ser enviado ao exterior. Autoridades israelenses afirmaram à agência de notícias que o presidente americano Donald Trump garantiu a Israel que o estoque de urânio de Teerã será enviado para fora do Irã e que qualquer acordo de paz incluirá uma cláusula sobre o tema. As principais autoridades do Irã, segundo as fontes ouvidas pela Reuters, acreditam que enviar o material para o exterior deixaria o país vulnerável a futuros ataques dos EUA e de Israel.
O suposto programa nuclear do Irã está no centro do conflito. Quando realizaram ataques no final de fevereiro ao Irã, EUA e Israel defendiam o desmantelamento integral das instalações nucleares do país. "Os Estados Unidos justificaram sua agressão militar ao Irã pela preocupação com o desenvolvimento de um programa nuclear no país, e isso [a diretriz de Khamenei] diminui as expectativas dos investidores quanto à possibilidade de uma solução diplomática", afirma Leonel de Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
Petróleo e juros globais
Com a interrupção do estreito, a guerra pressiona as cotações do petróleo e adiciona incertezas às cadeias globais de insumos, aumentando a preocupação com uma alta inflacionária no mundo. Nesta quinta-feira, os preços do petróleo se mantêm próximos da marca de US$ 100. O barril Brent, referência mundial, era negociado a US$ 104,12 por volta das 16h30 (horário de Brasília). O petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, estava a US$ 97,49 no mesmo horário.
Tanto no Brasil quanto no exterior, o conflito tem aparecido nas projeções de juros. Conforme persiste e eleva as cotações da commodity, a guerra tem reforçado as apostas de juros restritivos por mais tempo. O Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75% em abril pela terceira reunião consecutiva. No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária, do Banco Central) reduziu a Selic para 14,5% ao ano, mas evitou sinalizar cortes futuros. Segundo o Boletim Focus desta semana, a Selic deve encerrar 2026 em 13,25% ao ano - antes da guerra, a expectativa era de 12% e, há um mês, de 13%.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, projeta a manutenção da taxa de juros dos EUA no intervalo entre 3,5% e 3,75% em todas as reuniões até outubro. Em dezembro, a maioria das estimativas aponta para um aumento para 3,75% a 4%. O cenário beneficia ativos de renda fixa, como títulos públicos, em detrimento de investimentos de maior risco, como ações. Na ótica de investidores estrangeiros, o cenário de maior volatilidade também penaliza moedas de mercados emergentes, como o real.
Cenário político interno
Internamente, investidores seguiram atentos aos desdobramentos do caso que liga o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, atualmente preso. Na última semana, o site Intercept Brasil revelou que Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro para financiar o filme Dark Horse, com um aporte de R$ 61 milhões de Vorcaro. A Folha de S.Paulo e o próprio Flávio confirmaram as mensagens - o senador negou ter recebido ou oferecido vantagens por conta disso. Flávio revelou ter visitado Vorcaro depois da primeira prisão do ex-banqueiro, no fim de 2025. Em entrevista, o senador afirmou que procurou Vorcaro para colocar "um ponto final" no envolvimento entre os dois. A Polícia Federal suspeita que recursos ligados a Vorcaro foram utilizados para financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele reside desde fevereiro de 2025. Eduardo e Flávio negam as acusações.



