Um novo memorial em Pyongyang, na Coreia do Norte, sugere que cerca de 2.304 soldados norte-coreanos morreram lutando ao lado da Rússia contra a Ucrânia, de acordo com uma investigação da BBC baseada em imagens de satélite e fotos oficiais. O monumento, inaugurado em 26 de abril, homenageia os militares que participaram da operação na região de Kursk.
O acordo de defesa mútua
Em junho de 2024, a Coreia do Norte firmou um pacto de defesa mútua com a Rússia. Dois meses depois, a Ucrânia lançou uma incursão surpresa em Kursk, capturando mais de mil quilômetros quadrados de território russo. Esse acordo pode explicar por que as tropas norte-coreanas foram enviadas principalmente para Kursk, em vez de outras frentes de batalha, segundo Kim Jin-mu, do Instituto Coreano de Análises de Defesa.
O líder norte-coreano Kim Jong Un já havia prestado homenagem pública aos soldados mortos na guerra. Acredita-se que, em troca do envio de tropas, Pyongyang tenha recebido alimentos, dinheiro e assistência técnica de Moscou.
Construção do memorial
Em outubro de 2025, Kim Jong Un ordenou a construção de um museu no distrito de Hwasong, em Pyongyang, para homenagear os soldados mortos na guerra Rússia-Ucrânia. Imagens de satélite fornecidas pela Planet Labs mostram que as obras começaram no mesmo mês. Em dezembro, a estrutura rudimentar do complexo de 52 mil metros quadrados já era visível. Em março, a maior parte da construção externa estava concluída, e o paisagismo foi finalizado no mês passado.
O Museu Memorial dos Feitos de Combate em Operações Militares no Exterior foi inaugurado em 26 de abril. Segundo a agência estatal KCNA, o local tem como objetivo transmitir a "bravura incomparável" dos soldados norte-coreanos durante seu destacamento para "libertar" a região de Kursk.
Análise dos nomes gravados
O memorial consiste em um prédio, um cemitério e duas paredes de 30 metros de comprimento gravadas com nomes. A BBC analisou várias imagens divulgadas pela KCNA e identificou que cada parede é dividida em cerca de 14 seções, marcadas por linhas de pedra cinza. Em nove dessas seções, os nomes estão gravados em aproximadamente 16 colunas cada. Fotos aproximadas da parede leste mostram oito nomes por coluna. Isso resulta em 1.152 nomes por parede, totalizando 2.304 nas duas paredes.
Songhak Chung, pesquisador do Instituto Coreano de Estratégia de Segurança, concorda com a estimativa. Ele afirma que "as paredes do memorial estão repletas de nomes de soldados falecidos escritos em caracteres extremamente pequenos. Considerando a área de superfície e a densidade do texto, é provável que o número chegue a vários milhares". O número exato não pode ser confirmado devido à falta de imagens de alta resolução, mas a estimativa da BBC se aproxima dos dados do Serviço Nacional de Inteligência (NIS) da Coreia do Sul.
Em setembro de 2025, o NIS informou que cerca de 2 mil soldados norte-coreanos foram mortos e outros 2,7 mil feridos. Em fevereiro deste ano, a agência disse que aproximadamente 6 mil dos 11 mil militares enviados à Rússia haviam sido mortos ou feridos.
O cemitério e o columbário
Imagens de satélite de abril mostram cerca de 140 túmulos no lado oeste do cemitério e 138 no lado leste. O prédio principal parece ser um columbário, local que abriga urnas funerárias. Chung explica que "a parede inteira parece estar cheia de compartimentos de armazenamento com padrão de grade para restos mortais". O salão memorial tem três andares e, excluindo escritórios e áreas de exposição, o repositório interno poderia abrigar pelo menos mil conjuntos de restos mortais.
A SI Analytics, empresa de pesquisa sul-coreana, aponta um "sistema hierárquico de comemoração": soldados que demonstraram "valor extraordinário" são homenageados com túmulos e lápides ao ar livre, enquanto outros são lembrados em urnas dentro do columbário. Kim Jin-mu acredita que os enterrados no cemitério podem incluir corpos recuperados, oficiais superiores ou indivíduos que receberam reconhecimento especial.
Justificativa política
O Ministério da Unificação da Coreia do Sul diz que é "difícil confirmar" se todos os soldados mortos estão listados nas paredes. No entanto, Kim Jin-mu considera muito provável que todos os nomes estejam inscritos. "O memorial tem como objetivo recompensar aqueles que se sacrificaram pelo Estado e manter o apoio público. A omissão de nomes pode causar descontentamento entre famílias enlutadas e minar seu propósito", afirma.
A imprensa estatal norte-coreana também informou que um complexo habitacional foi construído para veteranos e suas famílias no mesmo distrito, com moradores se mudando desde março. Cho Han-bum, pesquisador do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, diz que a construção do monumento reflete um esforço para justificar o envio de tropas após grandes baixas. "Para a Coreia do Norte, a Rússia é o único país com o qual ela pode cooperar militarmente em seu atual estado de isolamento", conclui. O memorial também sinaliza a disposição de Pyongyang em continuar a cooperação militar com a Rússia, independentemente do desfecho da guerra.



